Requiescat in pace, Dennis

Em 11/04 este blog anunciou: “Dennis Hopper, um dos atores mais cool do planeta, está perdendo sua batalha contra um câncer de próstata e é considerado um paciente terminal, segundo seu advogado Joseph Mannis.”

A batalha chegou ao fim hoje, 29/05/2010.

Escrevi sobre Hopper – e mais especificamente sobre sua participação no filme Amor À Queima Roupa (True Romance) – no meu livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”.

Vai aí um trecho sobre Hopper, incluindo seu rapto por seres extraterrestres e o dia em que ele se explodiu.

Como disse Frank Sinatra – a quem Hopper interpretou – “só se vive uma vez. E do jeito que eu vivi, é mais que suficiente…”.

Acho que vale para Hopper também.

Segue a versão resumida do que está no livro:

“…Por falar em Tarantino, Amor À Queima Roupa (True Romance), dirigido por Tony Scott a partir de roteiro do criador de Pulp Fiction, não é o melhor filme do mundo, embora seja suficientemente bom como diversão adolescente. Foi com o dinheiro da venda deste roteiro, aliás, que Tarantino financiou Cães de Aluguel.

…Como opinou Roger Ebert, “o herói do filme, interpretado por Christian Slater, é algo como o público-alvo do filme. Ele trabalha em uma loja de revistas em quadrinhos, ocupa seu tempo vago assistindo a sessões triplas de filmes de kung fu e mal pode acreditar quando uma linda loira aparece em sua vida”

Hopper é o pai do personagem de Slater e recebe a visita de Walken, interpretando o mafioso Vincent Coccotti, que quer arrancar do primeiro informações sobre o paradeiro do seu filho.

… o grande momento do filme é o encontro entre os atores Christopher Walken e Dennis Hopper, naquela que se convencionou chamar de “a cena siciliana”.


O encontro entre dois gigantes do cool já seria clássico, não fosse o reforço de um dos melhores diálogos que Tarantino já escreveu – Walken, aliás,  protagonizou outro grande momento de Tarantino em Pulp Fiction, a cena em que ele entrega o relógio para o filho do companheiro morto na Guerra.

Walken, com seus olhos mortos de tubarão (aliás, os olhos mortos de um tubarão morto), escolheu inicialmente a carreira de cantor e dançarino – um cruzamento de Gene Kelly, Fred Astaire e qualquer um dos zumbis de George Romero. Aos 10 anos começou a carreira já ao lado de um dos gigantes do cool – Dean Martin (fazendo uma ponta em uma cena com ele e Jerry Lewis no programa de TV de ambos – The Colgate Hour). Seu talento como dançarino – que ele tenta mostrar em quase todos os filmes que participa – foi elogiado por dois colegas com alguma experiência no ramo – os já mencionados senhores Gene Kelly e Fred Astaire, depois de assistirem o filme “Pennies From Heaven”, de 1981.

Walken chama a atenção por vários motivos além da habilidade como dançarino: o cabelo (que ele costuma dizer que já era famoso antes mesmo dele ser conhecido), uma capacidade de transmitir ameaça só comparável a de John Malkovich (outro ator capaz de transformar até um bom dia em uma frase arrepiante) e o hábito de eliminar a pontuação dos diálogos, em algo que já foi descrito como uma vocalização dançante das frases – o que quer que seja isso.

Escrevendo para a revista eletrônica Salon, o crítico Stephen Lemons resenhou sua participação no filme “King of New York” (1990), de Abel Ferrara, dizendo que o ator interpretava um Robin Hood contemporâneo que “também possui as qualidades daquilo que Norman Mailer chamou de “Negro Branco”: Ou seja, ele mantém o hip e a ameaça das ruas enquanto tem savoir-faire suficiente para tomar champagne com a elite.” Em um destes cruzamentos estranhos que acontecem com gente cool, Walken declarou para a revista Empire que seu maior sonho é produzir um filme sobre a vida de John Holmes, o que só não se concretizou até agora por falta de financiadores…

No corner oposto, Dennis Hopper. Maluco-beleza absoluto, seu consumo de cocaína nos anos 70 alcançou assombrosos três gramas diários, acompanhados de 30 cervejas, maconha e cuba-libres.

Em 1979 participou de Apocalipse Now, interpretando um foto jornalista chapado – o que parece ter sido imensamente facilitado pelo fato dele ter passado as filmagens inteiras totalmente drogado – segundo ele mesmo, para melhor alcançar o subconsciente e se preparar melhor para o papel (então tá…). O filme, aliás, foi repleto de incidentes, dentre os quais o ataque cardíaco quase fatal de Martin Sheen, então também envolvido com álcool – a cena de abertura, aliás, foi completamente improvisada depois de Sheen passar o dia inteiro bebendo pesado.

Foi nesta época que Hopper se envolveu em diversos incidentes, quase cortando o dedo de Sally Kirkland com uma faca durante as filmagens de Human Highway e ameaçando com uma faca o ator Rip Torn, além de queimar a genitália de Natalie Wood ao colocá-la em uma banheira de champanhe (a mesma Natalie que viria a falecer em um mal explicado afogamento no dia de ação de graças de 1981, em que ela, o marido Robert Wagner e … Christopher Walken, seu parceiro no filme  Brainstorm, estavam juntos no barco do casal, acompanhados apenas de um marinheiro, navegando pela costa da Califórnia. A última noite da atriz começou com os três jantando em um restaurante chamado Harbor Reef, onde beberam muito e no qual, segundo testemunhas, Natalie começou a flertar abertamente com Walken. Os três saíram completamente alterados do restaurante, voltaram para a embarcação e ela desapareceu no mar. Segundo o autor Gavin Lambert, apesar dos rumores, Natalie e Walken não estavam tendo um caso na frente do marido dela. “Isto era o lado encrenqueiro da personalidade de Natalie, um ato de clara provocação ao seu marido e uma resposta ao senso travessura de Walken”.

Os dois sobreviventes nunca conseguiram extinguir os rumores de que a queda de Natalie poderia ser consequência de uma briga motivada por ciúme.)

Mas… Bem, Hopper: Todo esta história, incluindo a genitália queimada de Natalie Wood, culminou com sua já citada tentativa de suicídio perto de Houston, em uma performance pública e filmada,   na qual amarrou a si próprio em uma cadeira com 17 bananas de dinamite (ele achava que queriam matá-lo e que portanto era melhor ele próprio fazer o serviço – em uma prova de que Deus realmente protege as crianças, os loucos e os bêbados, ele escapou ileso, milagrosamente protegido pelo vácuo criado pela explosão), para depois sumir no deserto mexicano, onde, segundo algumas versões, teria sido abduzido por extraterrestres (não que eu acredite muito nisso – além de não acreditar em discos voadores, acho que os marcianos poderiam encontrar espécimes mais dentro do padrão para explorar do que Hopper).

Aliás, este sequestro é mais bem explicado por Paul Young no livro L . A . Exposed “ aparentemente, a abdução por alienígenas pode ser ligada a um incidente que ocorreu durante as filmagens de Jungle Fever no México… Hopper estava sofrendo de um severo caso de exaustão, condição agravada por anos de uso crônico de álcool e drogas, estresse extremo e sintomas de neurose. Em algum ponto, enquanto estava trancado em seu hotel com uma garrafa de tequila, ele começou a ouvir vozes e sofrer alucinações “Eu achava que havia pessoas nas entranhas do hotel que tinham sido torturadas e cremadas – e que essas pessoas tinham vindo me salvar e que o assassinato delas era culpa minha” explicou ele para sua biógrafa Elena Rodriguez… Isto era apenas o começo, porque ele então começou a ver “insetos e cobras” caminhando por debaixo de sua pele.” Foi neste momento que ele rasgou suas roupas e saiu correndo para um jardim, onde avistou um disco voador que o guiou para a segurança. “Os médicos disseram que ele estava tão próximo da beirada que poderia facilmente ter entrado em uma situação irreversível de esquizofrenia” finaliza Young.

Em 1983 entrou para a reabilitação e retomou a carreira com Veludo Azul, do não menos esquisito David Lynch.

A partir daí foi encaretando progressivamente, tornando-se um conservador aliado do Partido Republicano – como parece ser o destino de diversos ex-doidões, o mais famoso deles alcançando a Presidência da República dos EUA.

Voltando à cena, Hooper percebe que será morto de qualquer forma, então, ao invés de responder às perguntas, insulta as origens sicilianas de Walken.

“Você sabe quem sou eu, Sr. Worley?” pergunta Coccotti/Walken. Quando Clifford/Hopper diz não ter ideia, Walken se apresenta: “Eu sou o anticristo. Você me colocou num clima de vendetta. Você pode dizer aos anjos no céu que você nunca viu o mal tão singularmente personificado quanto na face do homem que te matou.”

Momentos depois. Walken diz: “Sicilianos são grandes mentirosos. Os melhores do mundo. Eu sou siciliano. E meu velho era o campeão mundial dos pesos pesados dos mentirosos sicilianos. E foi crescendo com ele que eu aprendi a pantomima. Existem, na verdade, dezessete coisas diferentes que um cara pode fazer quando está mentindo que o entregam. Um cara tem dezessete pantomimas. Uma mulher tem vinte, mas um cara dezessete…”

Então, sabendo que Walken é siciliano, Hooper diz: “Você sabe, eu leio um bocado. Especialmente coisas sobre história. Eu acho essa porra fascinante. Eu não sei se você sabe disso, mas os sicilianos foram inseminados pelos crioulos”

Walken, entre surpreso e divertido, diz: “Como é?”. Hopper retoma o raciocínio: “É um fato. Sicilianos têm sangue negro bombeando através de seus corações. Veja, há centenas e centenas de anos, os mouros conquistaram a Sicília. E os mouros são negros… Naquela época, os sicilianos tinham cabelos louros e olhos azuis, então os mouros mudaram o país inteiro. Eles foderam tanto com as sicilianas que mudaram a genética para sempre. Por isso os loirinhos de olhos azuis mudaram para cabelo negro e pele escura. Você sabe, é absolutamente surpreendente perceber que até hoje, séculos depois, os sicilianos continuam com esse gene crioulo.”

A cena evolui até que Walken beija Hopper (“Eu amo esse cara” diz ele, simpático até demais para quem pouco tempo antes tinha  se apresentado como a anticristo) antes de dar um tiro em sua cara.

Em uma entrevista, Walken disse que o fato dele e Hopper serem amigos na vida real pode ter ajudado a criar o clima de simpatia entre os dois antagonistas “Nós realmente gostamos um do outro, mas eu o mato da mesma forma”

O encontro destes dois gigantes, as reações de Walken aos insultos de Hooper, tudo isso faz da cena um clássico. Atrás deles, testemunhando o pugilato verbal,  está um ator gigantesco chamado James Gandolfini, que graças a esse filme foi descoberto por um produtor chamado David Chase (e sua diretora de casting  Susan Fitzgerald), que o chamou para integrar o elenco daquilo que a revista Vanity Fair definiu como “talvez a maior obra-prima da cultura pop de seus dias” – uma série chamada “Família Soprano””

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Renzo Mora Fala Sobre o Cool no UOL Livros Em Revista

Papo sobre o livro “Fica Frio – Uma Breve História do Cool”, com meu amigo (e ex vizinho) Ralph Peter, em seu programa na UOL.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Um Minuto de Comercial

De vez em quando, as emissoras ficam tão sem assunto que colocam no ar qualquer coisa.
Seguem alguns exemplos: Entrevistas que eu concedi no lançamento dos meus livros, “Cinema Falado” (agora reeditado em conjunto com o livro bônus “25 Filmes Que Podem Arruinar A Sua Vida”), “Sinatra – O Homem e a Música” e “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”.
A primeira foi dada no Programa do Jô Soares, em 04/05/2000, falando sobre “Cinema Falado”, quando descobri que o Jô gostava tanto de filmes ruins quanto eu.

https://www.youtube.com/watch?v=7xEvmvJLtPo

Amaury Jr. também conversou comigo sobre “Cinema Falado”, em 25/02/2000 – e sua produção fez um trabalho fantástico de pesquisa, indo procurar as cenas mencionadas no livro

Outra foi dada para a GloboNews, para a musa Maria Beltrão, em 26/05/2001, quando do lançamento da primeira edição de “Sinatra – O Homem e a Música”, gravada no Rio de Janeiro, na suíte presidencial do então Hotel Rio Palace, que hospedou o cantor em sua primeira viagem ao Brasil.

Aqui eu falo um pouco para Maria Beltrão sobre o show de Sinatra no Maracanã

Por fim, Ronnie Von, gentleman absoluto, me recebe em seu programa de 24/11/2008 para falar do livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool” e conta de seu encontro com Dean Martin e como isso mudou seu corte de cabelo.

O Escândalo de Letterman

O repórter Mark Seal conseguiu furar um pouco da barreira de silêncio que cerca Letterman e escreveu na Vanity Fair deste mês sobre o escândalo de sua infidelidade com uma estagiária.

Stephanie Birkitt, ex estagiária de David Letterman e um dos pivôs do caso de extorsão que envolveu o apresentador

Stephanie Birkitt no show com Letterman

O artigo está disponível – na íntegra – on line no site da revista.
Eu já listei Letterman como uma das figuras mais cool do mundo em meu livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool” (usando um argumento demolidor e definitivo: ele pode usar terno com meias brancas e continuar cool – se você ou eu tentarmos fazer isso vamos receber o desprezo de toda a sociedade ocidental civilizada).
Vai aí um trecho falando de sua mania de desprezar as estrelas mais lindas que se jogam em cima dele (e escolher uma estagiária nota 6, no máximo. Almir Roberto, designer conhecido por seu alto padrão de exigência e pelos apelidos cruéis e implacáveis que coloca nos amigos – como “encantador de baleias” em um amigo que, como eu, prefere mulheres com carne – , daria nota 3, no máximo, para a moça)

Segue a tradução de um pedaço da matéria:
“(David) Letterman é, segundo sua própria definição, uma das pessoas mais infelizes, inseguras, assombrada por culpas, autodepreciativas e vitimada por autopiedade do planeta. Tudo isso define suas escolhas, especialmente no que tange às mulheres. “Ele prefere mulheres sem grandes atrativos e que, ao mesmo tempo, estejam ao alcance de sua demoníaca baixa autoestima” afirmou um veterano observador de Letterman. Ele tem ignorado ou evitado cantadas óbvias de algumas das estrelas mais lindas de nossa geração, alegando que não tinha nada em comum com elas, e nada para conversar com elas fora do ambiente do show. Drew Barrymore dançou em sua mesa e tirou a camisa para ele.

Madonna queria que ele cheirasse suas calcinhas.


Ellen Barkin passou duas semanas tentando seduzi-lo enquanto fazia laboratório para um filme nos bastidores do show.

“Eu estava fungando no seu cangote!,” Barkin contou no ar, acrescentando que ele não chegou a rejeitá-la: ele nem percebia que ela estava lá.
Julia Roberts praticamente fez uma segunda carreira flertando com ele ao longo dos anos.

“Eu não acho que as mulheres tenham desistido dele,” declarou sua ex-assistente Laurie Diamond “Ele está casado e elas continuam morrendo para falar com ele.”…Regina Lasko (sua esposa) parece ser o arquétipo das mulheres de Letterman: extremamente esperta, com aparência normal e absolutamente discreta a respeito dele.”

Nos vídeos abaixo, para demonstrar o apelo de Letterman, ele é beijado por Gillian Anderson, de Arquivo X…

…e por James Franco, o menos romântico da série.

Um capítulo completo do livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”

Este capítulo  (resumido e adaptado para a net) fala sobre John Holmes – e talvez seja a matéria mais ampla sobre a história do homem já publicada no Brasil.
A ilustração é de Almir Roberto, também responsável pela capa.
Espero que vocês gostem –
e, principalmente, comprem o livro.

É só clicar aqui.

cool2

Um episódio lembrado pelo escritor Will Friedwald: Um estudante trouxe até o poeta americano Robert Frost um caderno com seus versos, uma carta de apresentação e apresentou-se como poeta. Frost respondeu: “Poeta é uma palavra dada, filho. Você não pode se auto-proclamar poeta”.

Com o cool é a mesma coisa: Você pode ser percebido como cool, nunca conscientemente tentar parecer ou se declarar cool.

Na indústria do entretenimento, ser visto como cool tem mais valor do que um Oscar ou um Grammy – é só ver o número de premiados que desaparecem logo depois de levar um destes prêmios para casa.

Os marketeiros ainda não inventaram um método eficaz para forjar o cool – e forçar a barra só consegue produzir resultados desastrosos.

O grande problema está na definição do que é ser cool e na complexidade das características que se cruzam e interligam para produzir a percepção de coolness.

Cool, como gíria, vem sobrevivendo há mais de 70 anos.

Ela começou a ser usada pelos negros norte-americanos no início da década de 30 e ganhou popularidade na Segunda Guerra Mundial, com o auxílio luxuoso dos músicos de jazz.

Ao longo do tempo, expressões como bully, capital, hot, groovy, hep, crazy, nervous, far-out, rad e tubular tentaram substituí-la e morreram tão rapidamente quanto apareceram, enquanto o cool atravessa o século com invejável saúde e disposição.

Mas o que significa o cool hoje em dia?

O ator pornô John Holmes, por exemplo, era tão absurdamente cool que o crítico de cinema Sam McAbee chegou a qualificá-lo como uma mistura de Shaft com Bruce Lee.


Se as estatísticas estiverem corretas, o pênis do leitor (ou do companheiro mais freqüente da leitora) deve medir cerca de 15 cm quando ereto.

Tudo bem. Pode ir medir. Eu não estou com pressa.

John Holmes, o – em mais de um sentido – maior ator pornô de todos os tempos tinha um membro que, quando animado, alcançava 33 centímetros.

Para aumentar a humilhação do leitor comum, o mesmo funcionava eficiente e regularmente, como puderam comprovar as cerca de 3 mil pessoas – de todos os sexos – que tiveram contato com o dito cujo.

Biologia é destino, cansava de lembrar o grande Paulo Francis.

Não fosse por esse detalhe anatômico, talvez Holmes, que completaria 60 anos em 2004, estivesse aposentado da carreira de motorista de ambulâncias, ainda ao lado da enfermeirinha virgem com quem casou aos 21 anos – e se não fosse sua carreira cinematográfica as vizinhas nunca teriam adivinhado a razão do sorriso de superioridade que, imagino, estampasse diariamente o rosto da Sra. Holmes.

Mas o destino o pôs no lugar certo, na hora certa e com o tamanho certo.

Após uma série de batalhas legais, no início dos anos 70 o pornô tinha finalmente chegado aos cinemas públicos – em 1972 “Garganta Profunda” arrecadou milhões e provocou um impacto cultural tão forte que acabou batizando o informante anônimo do caso Watergate.

Assistir “Deep Throat” tornou-se uma espécie de obrigação social, cunhando o termo “pornô chic”.


O ensaísta Christopher Hitchens coloca o filme entre as principais razões que tornaram a felação “tão americana quanto torta de maçã”, complementando “Dick Cavett declarou que nós fomos de olhar para uma marquise onde está escrito Garganta Profunda e torcer para aquilo não querer dizer o que nós achamos que diz para “garotos que nem sequer consideram (a felação) como sexo de verdade”

Entre os espectadores que formaram filas na porta dos cinemas, estavam nomes como o do escritor Truman Capote, o apresentador de talk shows Johnny Carson e o diretor Mike Nichols.

O vice-presidente norte-americano Spiro Agnew assistiu à uma exibição privada na casa de Frank Sinatra em Palm Springs.

Sammy Davis Jr. fechou o cinema Pussycat em uma sessão fechada para amigos como Shirley MacLaine, Lucille Ball, Steve Lawrence e Edie Gourme. O Trio Los Panchos Não Foi Convidado.

Ou seja – Holmes surge no cenário exatamente quando o pornô começa a virar cool.

Com a explosão do gênero, houve uma corrida para produzir novos filmes e Holmes rapidamente foi descoberto.

Sobre o momento de sua revelação, o autor Mike Sager conta em seu
livro Scary Monsters and Super Freaks: “… Holmes estava perdido de emprego…

…em emprego, tentando encontrar seu espaço. Ele tinha deixado a direção
de ambulâncias… e tinha vendido sapatos, móveis… havia trabalhado em
um frigorífico até que seus pulmões entrassem em colapso por causa do
freezer. Havia pouco, ele tinha começado a treinar para se tornar segurança
uniformizado.
Sem que Sharon soubesse, Holmes tinha começado no mundo pornô,
depois do encontro com um fotógrafo profissional chamado Joel (Sussman)
no banheiro de uma casa de pôquer em Gardina… Ao chegar mais cedo do
trabalho, Sharon deixou sua bolsa no vestíbulo de seu apartamento de um
dormitório em Glendale. A porta estava aberta. Dentro dele, estava seu marido,
John. Ele tinha uma fita métrica em uma mão e o pênis em outra.
“O que você está fazendo?”, ela perguntou.
“O que parece que eu estou fazendo?”
“Tem alguma coisa errada? Você está com medo de que ele esteja
encolhendo e morrendo?”, ela perguntou, rindo.
“Não, só estou curioso”, disse Holmes.
Sharon foi para o quarto, deitou-se e começou a ler uma revista. Vinte
minutos depois ele entrou no quarto, com o membro completamente ereto.
“É incrível”, disse John.
“O quê?”
“Ele vai de cinco polegadas para dez. Dez polegadas de comprimento.
Quatro polegadas de diâmetro.”
“Isso é ótimo”, disse Sharon, virando a página da revista. “Você quer
que eu chame a imprensa?…”
Santo de casa não faz milagres mesmo – ou talvez Sharon, que casara
virgem, achasse que aquilo que tinha em casa era trivial. Acho que foi Mia
Farrow que disse que na infância imaginava que ser pobre era não ter piscina
em casa. Sharon talvez vivesse na mesma concha de seu mundinho privilegiado.
Com US$ 750,00 e apenas uma diária de filmagem, o diretor e roteirista
Bob Chinn produziu um filme estrelando o novo astro no papel do detetive
noir Johnny Wadd, uma mistura de

Philip Marlowe…

…Sam Spade…

…e o obelisco do Ibirapuera

, cujo estrondoso sucesso gerou uma série e fez de Holmes,
com seus terninhos apertados de três peças e indefectíveis óculos escuros
Ray Ban, um ícone dos anos 1970 e a quintessência do cool para toda uma geração (além de criar um franquia que, pela relação custo/benefício, foi muito mais lucrativa que a do agente 007).

O produtor pornô Bob Vosse afirmou que Holmes era um cavalheiro no set – “Bem, a sua moda”. Dava presentes para as parceiras de cena, os quais ele mesmo se encarregava de roubar das lojas. As atrizes se apaixonavam por ele, embora ele as esquecesse logo depois do banho que tomava para sair do estúdio.

Uma de suas parceiras, a atriz Bunny Bleu, conta no livro The Other
Hollywood, de Legs McNeil: “John e eu saímos em uma turnê promocional…

Bunny Bleu

Bunny Bleu

…pelo Texas dando autógrafos em lojas de artigos sexuais – e foi realmente
selvagem. As mulheres davam a volta no quarteirão. Elas urinavam nas calças de tão excitadas que ficavam de encontrá-lo. Uma mulher, de fato, foi para casa, se trocou, se limpou, voltou e pediu um autógrafo a ele. Isso é coragem. Eu não acho que gostaria de reencontrar alguém depois de fazer xixi nas calças por causa dele”.
O produtor (e melhor amigo de Holmes) Bill Amerson afirma que a série Wadd inaugurou o star system no gênero em seus primórdios. Ele conta que “uma vez John e eu estávamos no parque Yosemite, pescando, e ficamos sem gasolina. Isso era nos anos 70, quando houve a crise de combustível e você só podia abastecer em dias alternados, dependendo do número da placa.
E aquele não era nosso dia. Quando o rapaz do posto apareceu, John
incorporou o Johnny Wadd – a voz mais grave, a atitude, a postura de
autoridade – como um detetive ou um personagem de Damon Runyon.

E o cara encheu o tanque só porque John assumiu sua porção Johnny
Wadd. As pessoas faziam isso. Ele chegava no embarque do avião e dizia:
‘Eu sou Johnny Wadd…’ e sempre ia de primeira classe.
Ele usava muito esse personagem e, de fato, acreditava que era o próprio.
Ele se tornou Johnny Wadd em sua própria cabeça e começou a achar que nada podia dar errado para ele, que ele podia resolver casos. Ele simplesmente
ficava louco às vezes. Não sei se alucinando, mas, sim, um pouco insano.
Era embaraçoso”.

E então você já viu este filme.

Grana e adulação em excesso acabam levando a um pouco de maconha de vez em quando e, na seqüência, a toneladas de cocaína e valium diárias.

Nos difíceis anos pré-Viagra, o consumo paquidérmico de substâncias não controladas pelo FDA acabou comprometendo o desempenho do astro (parafraseando Gay Talese, Holmes de pau mole é um Picasso sem tinta, uma Ferrari sem gasolina…)

Meio afastado das telas, Holmes buscou fontes alternativas de renda e se aproximou de traficantes – não raro trocando os favores de sua namoradinha Dawn Schiller (então com quinze anos de idade – vide foto abaixo) por mercadorias.

Neste processo ele conheceu uma gangue de traficantes que se reunia em Los Angeles em uma casa na rua Wonderland (ou “País das Maravilhas”, para usar a tradução do título do livro mais conhecido de outro pedófilo – Lewis Carroll, o autor da série Alice.)

A passagem de Holmes pelo mundo de Alice foi traumática.

Encarregado pelos traficantes de transportar uma carga de drogas, ele desapareceu com a encomenda narinas abaixo.

A falta de profissionalismo do performer não deixou felizes os comerciantes, que o obrigaram a surgir com algum tipo de reparação.

Esta veio através da facilitação do acesso à mansão de outro traficante – o libanês Eddie Nash, que poderia passar facilmente por irmão gêmeo do mafioso ítalo-brasileiro Tomasso Buschetta – o que, convenhamos, não chegava a ser uma vantagem para nenhum dos dois. Nash era tão louco que ia ao banheiro, não se limpava e obrigava garotas drogadas a executarem o serviço… com a língua!!!

Eddie Nahs - Uma péssima opção para assaltar

Eddie Nash – Uma péssima opção para assaltar

Depois de uma visita, Holmes saiu da mansão e deixou a porta aberta para a entrada da carrolliana troupe, que o assaltou e cometeu o erro de deixar o concorrente vivo e um pouco irritado.

Os informantes de Nash rapidamente o levaram até Holmes e este até a sede da organização.

O reencontro entre Nash e os homens que o tinham assaltado não foi bonito. Resultou em um banho de sangue com quatro mortos, espancados com um pedaço de ferro.

Foto Real da Cena de Crime em Wonderland

Foto Real da Cena de Crime em Wonderland

Para vocês, pervertidos, mais cenas reais do massacre em Wonderland – não recomendado para pessoas sensíveis (embora, pelo que eu saiba, ninguém sensível acessa esse blog)

A impressão da palma da mão de Holmes na parede sobre uma vítimas sugere que ele tenha sido mais que um mero espectador no massacre.

John Holmes Preso – ainda que por pouco tempo

Mas como nada ficou provado…

Julgamento de John Holmes: Inocente (ou Não Culpado, como eles dizem lá em cima)

Julgamento de John Holmes: Inocente (ou “Não Culpado”, como eles dizem lá em cima)

… Holmes saiu livre da prisão e pronto para um novo relacionamento – desta vez com uma atriz pequena e especialista em sexo anal (aliás, duas características que o bom senso recomendaria manter o máximo de distância do astro) chamada Laurie “Misty Dawn” Rose, que se tornaria sua Segunda e última esposa.

Misty Dawn

Misty Dawn

Dawn Schiller, em foto recente

Dawn Schiller, em foto recente

Em busca de novas formas de expressão de sua arte, Holmes fez um filme gay com um ator que pouco tempo depois morreria de AIDS.

Holmes descobriu que estava contaminado em 1986, o que não o impediu de continuar a atuar sem proteção – incluindo um filme em que contracenava com a parlamentar Cicciolina – a coisa mais embaraçosa que já tinha acontecido na política italiana até a eleição de Silvio Berlusconi.

A morte chegou em 13 de Março de 1988, depois de dois anos de ingestão suicida de todas as drogas disponíveis na cidade dos Anjos.

Em uma tentativa meio desastrada de homenageá-lo, a não muito brilhante Laurie declarou: “Saibam que o coração e a alma dele eram muito maior que o seu pau”.

O cool de John Holmes residia na perigosa fronteira da psicopatia – cujas características, segundo o Manual Estatístico e de Diagnóstico de Distúrbios Mentais, incluem o roubo, a mentira, o abuso de álcool e drogas, a incapacidade de lidar com o tédio, a indiferença aos sentimentos alheios…

A existência de um paralelo entre o cool e a psicopatia já tinha sido percebida por Norman Mailer, em um estudo sobre a tribo hipster, datado de 1957,

Norman Mailer, descobridos do Branco NegroNorman Mailer, descobridor do “Branco Negro”

quando o fenômeno ainda estava na adolescência (Levantando a perigosa hipótese do psicopata ser apenas um cool hardcore)

Mas estamos nos antecipando.

Para descobrir o que é cool, é preciso investigar suas origens.

PS – Se você quer mais, sugiro comprar o documentário “Wadd: The Life & Times of John C. Holmes”, de 1998, disponível em DVD, dirigido por Wesley Emerson, ganhador do prêmio South By Southwest Film Competition.
Aviso: o documentário é barra pesada, com cenas do crime em Wonderland. Se você esperava uma visão irônica e divertida de Holmes, esse NÃO é o filme para você.
Vai aí o trailer:


O Novo Velho Dean Martin

Dos três cantores do Rat Pack (Francis Albert Sinatra, Samuel George Davis, Jr. e Dino Paul Crocetti) – o último é que apresenta a obra mais irregular.
Isso não acontecia por falta de talento – e sim por mera falta de disposição.
Ao contrário de seus pares, Frank Sinatra e Sammy Davis, Jr., Dean Martin não levava nada a sério – nem sua carreira cinematográfica, nem seus discos.
Suas partidas de golfe eram praticamente a única coisa para que ele ligava na vida – e provavelmente porque ninguém enchia o saco dele cobrando tacadas perfeitas, pontos, liderança em competições e coisas do gênero.
Esta sincera indiferença fez com que eu o colocasse (ao lado de um pistonista chamado Miles Davis, que suponho você conheça) como uma das duas figuras mais cool da história, em meu livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”.
Se isso afetou a qualidade geral de seu trabalho – e seu estilo é, claramente, o que pior envelheceu dos três – não quer dizer que não seja possível encontrar grandes canções em seu repertório.
Se você quer dar uma chance ao veterano Dean, um CD recém lançado é o lugar para começar.
Amoré, uma coletânea romântica, traz sua dose de cafonices (como a insuportável That’s Amore), mas no geral é um disco delicioso.
E, por outro lado, se você não quiser dar uma chance para Dean, resta um consolo: Ele não ia dar a mínima.
O que, para mim, é mais do que suficiente para reforçar a recomendação.

Dean Canta “Welcome To My World” Enquanto Sinatra sacaneia dos bastidores

(“É o meu mundo!Você Só Vive Nele” diz o Ol’ Blue Eyes).

A canção não está na coletânea, por sinal.

O Sentido da Vida por Laerte Coutinho

Laerte, em seu blog: “Sempre me espanto com essa questão que algumas pessoas fazem de que as histórias tenham “sentido”.
Nunca consegui entender qual era exatamente o sentido desse sentido.
Moral, filosófico, algum tipo de lição de vida?
Algo que nos “acrescenta” – como se fôssemos porquinhos com uma fenda às costas?
Faço histórias para crescer, não para acrescentar.”

Um pouco da arte do mestre – e de dois caras igualmente talentosos – Allan Sieber e a tira que menciono no meu livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”, na qual ele explica a inexplicável profissão de cool hunter, além do story board que Edson Aran fez para o filme contando a vida de nosso racista de plantão.