João Gilberto Matou Um Escritor

Freud, em seu estudo sobre Leonardo da Vinci, observou que ele deixou inacabada a maioria de suas pinturas (mesmo as já pagas pelos contratantes). Freud especula que a razão era Leonardo buscar uma perfeição que ele próprio achava que nunca conseguiria encontrar, o que o levava a abandonar os trabalhos sem olhar para trás e sem se preocupar com o destino das pinturas abortadas. Antes de pintar, ele fazia vários desenhos, pesquisas e estudos preliminares, ENSAIAVA exaustivamente, mas adiava a pintura propriamente dita indefinidamente, possivelmente paralisado por um desejo inalcançável de perfeição. “Quero fazer milagres” dizia Leonardo.
E a busca dos milagres travava a execução de suas obras – mesmo que os outros já as julgassem milagrosas o suficiente.
João Gilberto adiou (possivelmente para sempre) os shows que comemorariam seus 80 anos. João busca a audiência perfeita – calada, respeitosa – o microfone perfeito, a acústica perfeita, o banco perfeito, o acorde perfeito.
E, como Leonardo, esta busca por perfeição o tranca em seu apartamento – onde possivelmente executa os melhores shows de sua vida, para si mesmo, lapidando suas preciosidades.
João é um obsessivo e um dos maiores artistas do planeta.

Amoroso para mim é um dos maiores álbuns – não do Brasil – mas do mundo; um milagre que influenciou todo mundo – Dianna Krall tentou reinventá-lo em “The Look of Love” recorrendo ao mesmo arranjador, o brilhante Claus Ogerman. Eric Clapton repensou sua obra depois de ouvir João. John Pizzarelli. A lista é infinita.
Mas João não é para amadores.
Um livro brilhante recém-lançado conta a busca de um alemão por João Gilberto. Ele ouve o homem e o transforma em sua caça. Vem para o Rio buscá-lo. Conversa com pessoas que cercam João – ou melhor, que o cercaram. Do sábio Roberto Menescal ele ouve a advertência: “Tome cuidado… João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também… é capaz de você se tornar um amaldiçoado para sempre.” Esse diálogo está na página 65 da edição brasileira de “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto”, do alemão Marc Fischer.

Fischer não viu a edição brasileira. Nem a alemã. Antes de o livro sair, ele se matou, aos 40 anos. Em seus cinco meses de pesquisa no Brasil, Fischer nunca encontrou com João Gilberto. Mas ele já tinha sido amaldiçoado quando ouviu o homem pela primeira vez.


Marc Fischer – 1970 – 2011

A beleza tem esse poder. Amaldiçoa a gente. Cria parâmetros de beleza e perfeição inatingíveis. João cria essas belezas. Encanta alguns. Amaldiçoa outros. Felizes são os que o acham um chato. Jamais terão sensibilidade o suficiente para caírem na maldição. O que é a salvação deles. E, de certa forma, sua própria maldição. Viverem sem ser tocados pela genialidade de João.

Spoiler Alert: É claro que o telefonema de madrugada para o escritor, em que alguém do outro lado da linha canta Ho-ba-la-lá, foi falso. João é um conversador compulsivo por telefone. Uma ligação de João Gilberto não seria como a descrita. Fischer desconfiou. E estava certo.

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3 Respostas para “João Gilberto Matou Um Escritor

  1. O livro é muito agradável de ser lido mas, do ponto de vista histórico, não deve ser levado a sério, tantas são as inverdades. Deve ser lido como uma crônica mais longa, como um bom trabalho de ficção. Porém a homenagem ao grande talento da arte brasileira já o justifica e o torna recomendável.

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