James Ellroy: Cara a Cara Com O Cão Do Demônio

Queriam apresentar o Tom Jobim para seu ídolo Cole Porter. Na ocasião, Porter já estava sem a perna e depressivo. Jobim não topou. Tinha medo de perder a admiração se encontrasse o homem. James Ellroy é um dos meus heróis literários, ao lado de Raymond Chandler, de quem ele já gostou quando novo e hoje detesta.
Aos 63 anos, Ellroy não poderia me decepcionar. Já tinha lido o suficiente para imaginar que ele fosse antipático, grosso e impaciente. Para minha surpresa, o homem que encontro é sorridente, bem humorado e quase solar, com uma camisa imperdoável de turista no Havaí.
Sua palestra é divertida, inteligente e provocadora. Quando ele abre para as perguntas da platéia, eu mando um bilhete perguntando quem era o mais perigoso: Hoover, Giancana ou Nixon.
Ele não responde de pronto. Respira e diz, de seu jeito pausado, articulando cada palavra demoradamente: “Entre o Presidente Richard Mihous Nixon, o burocrata John EdGAY Hoover e o mafioso assassino Sam Giancana, o mais perigoso era Hoover”.
Minutos depois, na fila de autógrafos, me identifico como o autor da pergunta e digo que penso a mesma coisa. Hoover chantageou diversos presidentes dos EUA e se manteve na chefia do FBI, que transformou em fonte privada de fofocas e dossiês. Ele me diz: “É, e ele durou mais do que os outros…”.
Antes de sair, o Cão do Inferno me diz “Deus te abençoe”. Se Deus existisse, seria melhor ele obedecer ao cara. Uma ordem do Cão do Demônio não deve ser ignorada.

5 Respostas para “James Ellroy: Cara a Cara Com O Cão Do Demônio

  1. Fico feliz por ti, Renzo, já conheci muitos que passaram por essa decepções. Claro que eu também me decepcionei quando descobri quem eram os ídolos dessas pessoas, então fico feliz em saber de sua coerência ao escolher os seus.
    Abraço, amigo.

  2. Mais do que a resposta – corretíssima do escritor – gostei da sua pergunta.
    Fazer perguntas inteligentes é arte em extinção.
    Hoover, que passou a vida montando dossiês, foi o responsável pela expulsão de Chaplin dos Estados Unidos.
    Abraço.
    Jacy

    • Pois é, Luiz e Jacy:
      Sobrevivi ao encontro com o Cão do Demônio. E gostei do cara, que faz tremer nas bases os jornalistas.
      Hoover era um pulha. Uma pulha que usava vestido, mas, ainda assim, um pulha…
      Renzo

  3. Que grande momento. A admiração legítima sendo celebrada. O gênio compartilhado numa sintonia fina. A alegria de um encontro pautado pela inteligência. Bom demais.

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