Quando Os Aeroportos Não Eram Rodoviárias…

Hoje, os aeroportos parecem rodoviárias, cheios de gente feia, pobre e de crianças remelentas.

Não era assim quando eu comecei a voar. Havia charme e sofisticação no ar.

Por exemplo, depois do embarque, você podia escolher entre comer lagosta, filé mignon ou a aeromoça.

O piloto, não raro,  saia da cabine com mapas e perguntava a você qual a rota de sua preferência.

Não havia filmes a bordo, por isso as empresas aéreas embarcavam companhias de teatro para encenarem peças para os passageiros. Viajei diversas vezes sendo entretido com montagens da companhia de Tônia Carrero, Adolfo Celi e Paulo Autran. Era comum a gente os mandar interpretarem em volume mais baixo, para podermos dormir.

Eu, particularmente, gostava de estragar Hamlet entregando para os demais passageiros “a bichinha morre no final”. Isso provocava gargalhadas na primeira classe, mais familiarizada com a obra shakespeariana.

Para não ocupar espaço, os atores eram desembarcados com paraquedas ao final do último ato.

Havia, claro, as viagens eróticas, com casais modernos que faziam a troca das passagens, uma inventiva variação da troca das chaves. Saíamos de nossas poltronas e, plenos de más intenções, seguíamos para a poltrona indicada no bilhete sorteado.

Eu, por exemplo, comi as acompanhantes de Jorge Guinle, Baby Pignatari, Porfírio Rubirosa e uma vez, por engano, o próprio  Ibrahim Sued. O clima entre nós nunca mais foi o mesmo e as menções ao meu nome em sua coluna caíram drasticamente.

Claro, nem tudo era perfeito. Houve ocasiões em que a banheira de hidromassagem do toalete não funcionava, obrigando os comissários de bordo a ficarem fazendo ondinhas com as próprias mãos.

Quando havia turbulências, seguíamos em caravana até a cabine e dávamos um croque nos pilotos. Dois, quando a turbulência atrapalhava nosso jogo de golf indoor.

Hoje qualquer um anda de avião.

Presidentes e presidentas do terceiro mundo possuem seus próprios aviões, quando, em nosso tempo, eles andavam de classe turística e ajudavam os comissários de bordo a acomodar nossas malas no compartimento de bagagem.

O presidente da companhia estendia um tapete vermelho para os passageiros e aguardava nosso embarque, saudando as moças com respeitosos beijos nas faces e a nós, os varões, com discretos apertões na genitália acompanhados de comentários como “Que pausão, hein, Dr. Renzo”.

Quando de bom humor, eu respondia com frases jocosas, tais como “tua mãe sempre gostou”

Ríamos muito e eu dava dois dólares para ajudar a manutenção das despesas.

Às vezes, relembrando esses anos dourados, me pego cantando Barbra Streisand. “Memories, light the corners of my mind /Misty watercolor memories of the way we were.”

Mas tem sempre outro passageiro bufando no meu cangote e dizendo: “olha o barulho. As criança tão drumindo”.

Gente grossa…

11 Respostas para “Quando Os Aeroportos Não Eram Rodoviárias…

    • Manalho e Nei:
      A Blanche Dubois sempre contou com a bondade de estranhos.
      Eu conto com a gentileza dos amigos – muito melhor
      Bjos

      Renzo

  1. Por isso comprei meu jatinho (sueco, claro). No entanto, tive de abrir mão dos charutos cubanos acesos com restos de brasas do Eyjafjallajökull… Maldita lei antifumo.

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