Escândalo: Tiririca na verdade é um intelectual

Nossa reportagem surpreendeu Tiririca, o deputado mais votado do país, lendo a obra de Antonio Gramsci  escondido na biblioteca. Confrontado com as evidências, o palhaço deputado não teve alternativa senão revelar: na verdade, é um refinado intelectual.

Tiririca recebeu nossa reportagem ouvindo Wagner em seu apartamento em Higienópolis, vizinho do ex-presidente FHC. “Coloco Wagner no último volume só para irritar o Fernando. Ele só gosta de Stravinsky” confessou rindo.

– Tiririca, qual sua concepção de governo?

– Olha, entre os clássicos tenho lido muito Montesquieu. Sua distinção entre república, monarquia e despotismo, afirmando que este último deveria ser erradicado e afastado, na república o poder pertence ao povo ou a uma parte esclarecida deste, na monarquia o poder pertence ao monarca, no despotismo, o poder pertence a um indivíduo, o déspota que governa sem honra e que utiliza o terror e a violência como forma de governação. Para erradicar o despotismo, Montesquieu apresenta a teoria da separação de poderes, de forma que o poder seja descentralizado das mãos de uma só pessoa para que não o use em proveito próprio. Sua solução para evitar o despotismo continua sendo a mais vigorosa e eficiente.

– Essas leituras influenciaram também sua obra?

– Pouca gente percebeu, mas Florentina tem raízes clássicas. A letra diz “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, Não sei se tu me amas, Pra que tu me seduz?” Essa impossibilidade do amor, a distância entre os amantes, tem base no mito de Tristão e Isolda. Ambos se amam, mas Tristão é banido do reino e morre sem a amada. Quando mandei o CD para o Umberto Eco, ele matou na hora a  alusão. De fato, Florentina tornou-se sua canção favorita.

– O senhor disse que não sabia o que fazia um deputado…

– Cientistas políticos estudam a distribuição e transferência de poder em processos de tomada de decisão. Por causa da frequente e complexa mistura de interesses contraditórios, a ciência política é frequentemente um exemplo aplicado da Teoria dos jogos. Sob esta ótica teórica, os cientistas políticos olham os ganhos – como o lucro privado de pessoas ou das empresas ou da sociedade como resultados de uma luta ou de um jogo em que existem regras não explícitas que a pesquisa deve explicitar. Tudo isso é sabido, mas minha colocação era Montesquieu puro. Em um sistema dominado pelo poder executivo, qual o papel de legislativo? Estamos cumprindo o papel de deter o avanço do despotismo? Era uma questão retórica, na qual eu me propunha a ser agente de uma redescoberta do papel do legislativo.

16 Respostas para “Escândalo: Tiririca na verdade é um intelectual

  1. O texto clona à perfeição o jornalismo atual já que usa duas vezes a expressão “nossa reportagem”, que tinha sido erradicada nos anos 60 pela turma debochada do Pasquim. Mas fica evidente a contrafação já que a abertura midiática é seguida por uma entrevista acadêmica. Há um paradoxo no conteúdo, que parece ser de jornal ou revista mas cabe pefeitamente em publicações científicas como Sinopsis, Essays ou Primordios, que costumam reunir a nata da diversidade universitária. Parabéns de qualquer forma, outra expressão também em desuso que voltou graças ao fuzilamento das redações. Gostei de saber que a ponta do iceberg da obra do Tiririca vibra de emoção bagacera enquanto o resto, submerso, é pura concentração cool.

    • A culpa é do próprio Tiririca, que responde às perguntas com intermináveis considerações sobre a política, transbordando charme, erudição e veneno.
      “Nossa reportagem” limitou-se a reproduzir a visão do palhaço deputado, que ainda nos presenteou com um CD autografado com sua canção tema, que guardaremos com imenso carinho, uma lembrança destes conturbados tempos que vivemos.
      Nossa reportagem agradece suas considerações, ainda que o mérito seja todo do político eleito.
      Forte abraço, irmão, e encaminharemos ao Tiririca sua sugestão de transformar suas considerações em um ensaio para a Sinopsis, Essays ou Primordios – aquela que pagar melhor.
      Renzo

  2. Fique impressionada com a sabedoria e o interesse do nosso, tão querido, Tiririca. Só não entendo uma coisa: Porque ele não seguiu por esse caminho (político) e não pelo humor?
    Bem, cada um possui duas escolhas, espero que ele tenha sucesso em sua gestão.

    um abraço.

    • Prezada Jeisy:
      A assessoria de Tiririca informa que sua carreira acadêmica foi atrapalhada pelo sucesso da canção que o imortalizou. “Bastava eu entrar em qualquer seminário sobre Edmund Husserl ou Martin Heidegger, por exemplo, para alguém puxar o coro ‘Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, Não sei se tu me amas, Pra que tu me seduz?’. Isso roubava a concentração dos palestrantes e forçou meu afastamento temporário das atividades universitárias. Mas é o preço do sucesso e não me arrependo dele” esclareceu o palhaço.

  3. Pingback: Escândalo: Tiririca na verdade é um intelectual (via Blog do Renzo Mora) « Beto Bertagna a 24 quadros

  4. Nossa! Este lado do Tiririca eu não conhecia, na verdade, acho que ninguém! Se realmente verdadeiro é ótimo, mas se for somente uma absorção daquilo que ele não compreende…ok, valeu o esforço! Parabéns! Bjs

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