Rogério Skylab e o Avesso do Lirismo

Foi o diretor de arte  Anastase (Nasa) Kyriakos quem me apresentou o som de Rogério Skylab, com a impagável “Matador de Passarinho”. Agora compro o DVD do artista, SKYLAB IX, e não sei o que fazer com Skylab. Nem o seu público, aparentemente.

Skylab não é engraçadinho como os Be & Thovens. Não faz um show para convenções de empresas e vendedores bêbados. Os adolescentes presentes na gravação de seu DVD também parecem não entender seu trabalho.

Em uma música, puxam um animado acompanhamento de palmas, que Skylab rapidamente interrompe. Eles riem a cada palavrão, como se estivéssemos na década de 1970. Fica a impressão de que Skylab está oferecendo pérolas aos porcos.

Porque ele é bom. Muito bom. Músicas como “Você vai continuar fazendo música?” ou “Dá um Beijo na Boca Dele” têm (vá lá) camadas.

A construção de “Eu Chupo meu Pau”, com um ágil jogo de palavras, é ótima.

“O Beijo”  fala da tênue fronteira que separa os pit boys da homossexualidade. Ele escorrega, às vezes. “O Mundo tá sempre Girando” é de uma obviedade que depõe contra o conjunto da obra, e “Funérea” parece feita sob medida para os adolescentes do show, mas no geral o balanço é altamente positivo.

Seguinte: Skylab é ótimo.  Melhor do que o público que o prestigia, possivelmente pelas razões erradas.

Skylab é o avesso da bossa nova. Há 50 anos os músicos cariocas fizeram uma música rica, lírica, harmoniosa, que parecia se encaixar na paisagem do Rio.

Este tempo passou. O Rio é uma cidade degradada, entregue aos bárbaros, e o avesso do lirismo é a voz de seus cronistas atuais. Por isso Skylab diz que sua música é essencialmente carioca. Aliás, sua música “Samba de uma só nota ao contrário” é a essência desta postura.

“Feia Pra Caralho” pode ser vista como uma resposta à “Garota de Ipanema”. A garota de Ipanema original inspirou Tom e Vinicius. A filha casou com (oh, Deus!!!) ROBERTO JUSTUS.

Nossos trovadores tinham que mudar.

Compre o DVD.

Abaixo, Skylab conversa com Peréio. Papo dos bons.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

5 Respostas para “Rogério Skylab e o Avesso do Lirismo

  1. eu sou o crucifixo peludo
    eu não sinto pena
    vocês não entendem
    eu sou coberto de pêlos

    vamos parar de ostentar suas bucetas raspadas
    não vamos parar de curtir nossas mãos peludas

    vamos demolir suas sinagogas feitas de pênis cavalares
    vamos desfilar pelas ruas com nossos crucifixos peludos

    eu não sou um crucifixo fodido
    eu tenho 2010 anos coberto de pêlos
    eu sou o único jesus cristo peludo
    no terceiro milênio traidor

    só falta trangredir
    o que ainda não transgredido
    só falta transgredir eu
    eu que nunca existi
    agora eu vou existir

  2. Ravazio é outro: o avesso do lirismo.
    Possivelmente Ravazio sabe o que ninguém diz: Que Drummond é chato pra cacete e que, tirando Pessoa, a poesia em língua portuguesa é quase indefensável.
    Renzo

  3. Renzo, sobre poesia em língua portuguesa podemos fazer uma comparaçãocoma famosa cena do Monty Python em O irmão de Brian. “O que fizeram os romanos para nós?” perguntou o radical revolucionário. Os aqeudutos, respondeu timidamente alguém. “Tudo bem, mas o que mais esses romanos fizeram?” Coleta do lixo permanente , disse outro. “Certo, certo,, coleta, mas é só, o que mais?” Direito romano, falou mais um. E assim foi indo.

    Você tem razão: Drummond é do cacete. Ponho de lado o Rosa do Povo, tão derramado, só para te agradar, mas invoco Boitempo (“viuvez tão antiga que parecia de nascença”) ou Impurezas do branco (“Minas não é montanha, Minas é abismo”). Nem falo em Morte e Vida Severina, do João Cabral, tão politicamente correto, só para te agradar. Mas cito apenas um poema, este: http://bit.ly/aERMbh. Que tem coisas assim: “quando falavas/ no telefone, eu diria/ que estavas de todo nua,/ só de teu banho vestida”
    E esqueceste a lírica de Camões, infiel? Tsk tsk tsk No mínimo dá de mil na repetição tsunâmica de “cê é feia pa caraio”. Para com isso.

    • Grande Nei:
      Eu sou fã do teu amigo Quintana. Tenho tudo dele – e o autógrafo em uma coletânea – do qual tenho o maior orgulho.
      Tem um poema do Quintana (cito de memória “meu primeiro amor sentávamos em uma pedra…”) que, além de um primor de economia me comove sempre.
      Quando peguei o autógrafo do Quintana vi que ele tinha olhos de anjo – vc que o conheceu pessoalmente pode confirmar (ou desmentir).
      Abração
      Renzo

      • Fiz um poema para o Quintana chamando-o de “borboleta branca na floresta queimada”. Ele adorou e prefaciou meu segundo livro, No Meio da Rua. Ele era o próprio anjo. Quando estreei em livro com Outubro me colocou entre os grandes e me ungiu com sua generosidade com seu prefácio no lançamento seguinte. Andava meio de banda porque escondia as asas debaixo do paletó surrado. Mas, pessolamente mesmo, ele gostava era de encontrar, claro, a Bruna Lombardi. Grande Quintana. Abs.

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