Requiescat in pace, Dennis

Em 11/04 este blog anunciou: “Dennis Hopper, um dos atores mais cool do planeta, está perdendo sua batalha contra um câncer de próstata e é considerado um paciente terminal, segundo seu advogado Joseph Mannis.”

A batalha chegou ao fim hoje, 29/05/2010.

Escrevi sobre Hopper – e mais especificamente sobre sua participação no filme Amor À Queima Roupa (True Romance) – no meu livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”.

Vai aí um trecho sobre Hopper, incluindo seu rapto por seres extraterrestres e o dia em que ele se explodiu.

Como disse Frank Sinatra – a quem Hopper interpretou – “só se vive uma vez. E do jeito que eu vivi, é mais que suficiente…”.

Acho que vale para Hopper também.

Segue a versão resumida do que está no livro:

“…Por falar em Tarantino, Amor À Queima Roupa (True Romance), dirigido por Tony Scott a partir de roteiro do criador de Pulp Fiction, não é o melhor filme do mundo, embora seja suficientemente bom como diversão adolescente. Foi com o dinheiro da venda deste roteiro, aliás, que Tarantino financiou Cães de Aluguel.

…Como opinou Roger Ebert, “o herói do filme, interpretado por Christian Slater, é algo como o público-alvo do filme. Ele trabalha em uma loja de revistas em quadrinhos, ocupa seu tempo vago assistindo a sessões triplas de filmes de kung fu e mal pode acreditar quando uma linda loira aparece em sua vida”

Hopper é o pai do personagem de Slater e recebe a visita de Walken, interpretando o mafioso Vincent Coccotti, que quer arrancar do primeiro informações sobre o paradeiro do seu filho.

… o grande momento do filme é o encontro entre os atores Christopher Walken e Dennis Hopper, naquela que se convencionou chamar de “a cena siciliana”.


O encontro entre dois gigantes do cool já seria clássico, não fosse o reforço de um dos melhores diálogos que Tarantino já escreveu – Walken, aliás,  protagonizou outro grande momento de Tarantino em Pulp Fiction, a cena em que ele entrega o relógio para o filho do companheiro morto na Guerra.

Walken, com seus olhos mortos de tubarão (aliás, os olhos mortos de um tubarão morto), escolheu inicialmente a carreira de cantor e dançarino – um cruzamento de Gene Kelly, Fred Astaire e qualquer um dos zumbis de George Romero. Aos 10 anos começou a carreira já ao lado de um dos gigantes do cool – Dean Martin (fazendo uma ponta em uma cena com ele e Jerry Lewis no programa de TV de ambos – The Colgate Hour). Seu talento como dançarino – que ele tenta mostrar em quase todos os filmes que participa – foi elogiado por dois colegas com alguma experiência no ramo – os já mencionados senhores Gene Kelly e Fred Astaire, depois de assistirem o filme “Pennies From Heaven”, de 1981.

Walken chama a atenção por vários motivos além da habilidade como dançarino: o cabelo (que ele costuma dizer que já era famoso antes mesmo dele ser conhecido), uma capacidade de transmitir ameaça só comparável a de John Malkovich (outro ator capaz de transformar até um bom dia em uma frase arrepiante) e o hábito de eliminar a pontuação dos diálogos, em algo que já foi descrito como uma vocalização dançante das frases – o que quer que seja isso.

Escrevendo para a revista eletrônica Salon, o crítico Stephen Lemons resenhou sua participação no filme “King of New York” (1990), de Abel Ferrara, dizendo que o ator interpretava um Robin Hood contemporâneo que “também possui as qualidades daquilo que Norman Mailer chamou de “Negro Branco”: Ou seja, ele mantém o hip e a ameaça das ruas enquanto tem savoir-faire suficiente para tomar champagne com a elite.” Em um destes cruzamentos estranhos que acontecem com gente cool, Walken declarou para a revista Empire que seu maior sonho é produzir um filme sobre a vida de John Holmes, o que só não se concretizou até agora por falta de financiadores…

No corner oposto, Dennis Hopper. Maluco-beleza absoluto, seu consumo de cocaína nos anos 70 alcançou assombrosos três gramas diários, acompanhados de 30 cervejas, maconha e cuba-libres.

Em 1979 participou de Apocalipse Now, interpretando um foto jornalista chapado – o que parece ter sido imensamente facilitado pelo fato dele ter passado as filmagens inteiras totalmente drogado – segundo ele mesmo, para melhor alcançar o subconsciente e se preparar melhor para o papel (então tá…). O filme, aliás, foi repleto de incidentes, dentre os quais o ataque cardíaco quase fatal de Martin Sheen, então também envolvido com álcool – a cena de abertura, aliás, foi completamente improvisada depois de Sheen passar o dia inteiro bebendo pesado.

Foi nesta época que Hopper se envolveu em diversos incidentes, quase cortando o dedo de Sally Kirkland com uma faca durante as filmagens de Human Highway e ameaçando com uma faca o ator Rip Torn, além de queimar a genitália de Natalie Wood ao colocá-la em uma banheira de champanhe (a mesma Natalie que viria a falecer em um mal explicado afogamento no dia de ação de graças de 1981, em que ela, o marido Robert Wagner e … Christopher Walken, seu parceiro no filme  Brainstorm, estavam juntos no barco do casal, acompanhados apenas de um marinheiro, navegando pela costa da Califórnia. A última noite da atriz começou com os três jantando em um restaurante chamado Harbor Reef, onde beberam muito e no qual, segundo testemunhas, Natalie começou a flertar abertamente com Walken. Os três saíram completamente alterados do restaurante, voltaram para a embarcação e ela desapareceu no mar. Segundo o autor Gavin Lambert, apesar dos rumores, Natalie e Walken não estavam tendo um caso na frente do marido dela. “Isto era o lado encrenqueiro da personalidade de Natalie, um ato de clara provocação ao seu marido e uma resposta ao senso travessura de Walken”.

Os dois sobreviventes nunca conseguiram extinguir os rumores de que a queda de Natalie poderia ser consequência de uma briga motivada por ciúme.)

Mas… Bem, Hopper: Todo esta história, incluindo a genitália queimada de Natalie Wood, culminou com sua já citada tentativa de suicídio perto de Houston, em uma performance pública e filmada,   na qual amarrou a si próprio em uma cadeira com 17 bananas de dinamite (ele achava que queriam matá-lo e que portanto era melhor ele próprio fazer o serviço – em uma prova de que Deus realmente protege as crianças, os loucos e os bêbados, ele escapou ileso, milagrosamente protegido pelo vácuo criado pela explosão), para depois sumir no deserto mexicano, onde, segundo algumas versões, teria sido abduzido por extraterrestres (não que eu acredite muito nisso – além de não acreditar em discos voadores, acho que os marcianos poderiam encontrar espécimes mais dentro do padrão para explorar do que Hopper).

Aliás, este sequestro é mais bem explicado por Paul Young no livro L . A . Exposed “ aparentemente, a abdução por alienígenas pode ser ligada a um incidente que ocorreu durante as filmagens de Jungle Fever no México… Hopper estava sofrendo de um severo caso de exaustão, condição agravada por anos de uso crônico de álcool e drogas, estresse extremo e sintomas de neurose. Em algum ponto, enquanto estava trancado em seu hotel com uma garrafa de tequila, ele começou a ouvir vozes e sofrer alucinações “Eu achava que havia pessoas nas entranhas do hotel que tinham sido torturadas e cremadas – e que essas pessoas tinham vindo me salvar e que o assassinato delas era culpa minha” explicou ele para sua biógrafa Elena Rodriguez… Isto era apenas o começo, porque ele então começou a ver “insetos e cobras” caminhando por debaixo de sua pele.” Foi neste momento que ele rasgou suas roupas e saiu correndo para um jardim, onde avistou um disco voador que o guiou para a segurança. “Os médicos disseram que ele estava tão próximo da beirada que poderia facilmente ter entrado em uma situação irreversível de esquizofrenia” finaliza Young.

Em 1983 entrou para a reabilitação e retomou a carreira com Veludo Azul, do não menos esquisito David Lynch.

A partir daí foi encaretando progressivamente, tornando-se um conservador aliado do Partido Republicano – como parece ser o destino de diversos ex-doidões, o mais famoso deles alcançando a Presidência da República dos EUA.

Voltando à cena, Hooper percebe que será morto de qualquer forma, então, ao invés de responder às perguntas, insulta as origens sicilianas de Walken.

“Você sabe quem sou eu, Sr. Worley?” pergunta Coccotti/Walken. Quando Clifford/Hopper diz não ter ideia, Walken se apresenta: “Eu sou o anticristo. Você me colocou num clima de vendetta. Você pode dizer aos anjos no céu que você nunca viu o mal tão singularmente personificado quanto na face do homem que te matou.”

Momentos depois. Walken diz: “Sicilianos são grandes mentirosos. Os melhores do mundo. Eu sou siciliano. E meu velho era o campeão mundial dos pesos pesados dos mentirosos sicilianos. E foi crescendo com ele que eu aprendi a pantomima. Existem, na verdade, dezessete coisas diferentes que um cara pode fazer quando está mentindo que o entregam. Um cara tem dezessete pantomimas. Uma mulher tem vinte, mas um cara dezessete…”

Então, sabendo que Walken é siciliano, Hooper diz: “Você sabe, eu leio um bocado. Especialmente coisas sobre história. Eu acho essa porra fascinante. Eu não sei se você sabe disso, mas os sicilianos foram inseminados pelos crioulos”

Walken, entre surpreso e divertido, diz: “Como é?”. Hopper retoma o raciocínio: “É um fato. Sicilianos têm sangue negro bombeando através de seus corações. Veja, há centenas e centenas de anos, os mouros conquistaram a Sicília. E os mouros são negros… Naquela época, os sicilianos tinham cabelos louros e olhos azuis, então os mouros mudaram o país inteiro. Eles foderam tanto com as sicilianas que mudaram a genética para sempre. Por isso os loirinhos de olhos azuis mudaram para cabelo negro e pele escura. Você sabe, é absolutamente surpreendente perceber que até hoje, séculos depois, os sicilianos continuam com esse gene crioulo.”

A cena evolui até que Walken beija Hopper (“Eu amo esse cara” diz ele, simpático até demais para quem pouco tempo antes tinha  se apresentado como a anticristo) antes de dar um tiro em sua cara.

Em uma entrevista, Walken disse que o fato dele e Hopper serem amigos na vida real pode ter ajudado a criar o clima de simpatia entre os dois antagonistas “Nós realmente gostamos um do outro, mas eu o mato da mesma forma”

O encontro destes dois gigantes, as reações de Walken aos insultos de Hooper, tudo isso faz da cena um clássico. Atrás deles, testemunhando o pugilato verbal,  está um ator gigantesco chamado James Gandolfini, que graças a esse filme foi descoberto por um produtor chamado David Chase (e sua diretora de casting  Susan Fitzgerald), que o chamou para integrar o elenco daquilo que a revista Vanity Fair definiu como “talvez a maior obra-prima da cultura pop de seus dias” – uma série chamada “Família Soprano””

5 Respostas para “Requiescat in pace, Dennis

  1. Renzo,

    Com toda essa loucura acho que o Dennis Hopper viveu muito e morreu de uma morte comum. Imagine que o ator era o único remanescente do elenco principal do filme “Juventude Transvidada”, que tinha James Dean, Natalie wood e Sal Mineo, e todos tiveram mortes trágicas.

    Grande abraço,

    Sávio

    • Grande Sávio:
      Sem dúvida – viveu muito mais do que quem o conheceu nos anos 1970 poderia imaginar.
      Abração do fã do seu blog,
      Renzo

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