Sinatra e Jobim (Finalmente) Juntos Outra Vez

Com um inexplicável atraso de mais de três décadas, finalmente é lançado o álbum com as sessões completas reunindo Frank Sinatra e Tom Jobim. A antologia, com o nome de “Sinatra/Jobim: The Complete Reprise Recordings” já saiu nos EUA e tem edição brasileira prometida para Junho de 2010.

A primeira parte da sessão teve o apoio e a produção de meu amigo Roberto Quartin, que conquistou a amizade e a confiança do cantor e copiou para si – com a devida autorização do homem, que ele não era louco – todo o acervo de gravações de Frank (mesmo as filhas de Sinatra recorriam a Quartin quando precisavam de matrizes para relançamento, já que o acervo original pegou fogo).

Roberto Quartin (à direita) com Victor Assis Brasil

Para celebrar o lançamento, segue o capítulo do meu livro “Sinatra – O Homem e a Música”, prefaciado por Quartin, que fala sobre esses encontros:

Sinatra – O Homem e a Música

“Sérgio Cabral, em sua biografia Antônio Carlos Jobim, conta como tudo começou. Jobim estava com amigos tomando chope no Bar Veloso – atual Garota de Ipanema – no Rio de Janeiro quando recebeu um interurbano.

“Não pensei em trote porque ninguém ia fazer uma brincadeira cara dessas, ligando dos Estados Unidos para mim” – lembraria Tom anos mais tarde, falando com Luís Carlos Lisboa  – “ …Sinatra foi falando, depois de se identificar com simplicidade “ Quero fazer um disco com você e quero saber se você acha interessante.” Soube depois que esse tipo de convite, de interesse profissional, ele sempre faz pessoalmente… No meu inglês precário, lembro que respondi “Perfeitamente, é uma ordem””

O primeiro encontro ocorreu na sede da gravadora de Sinatra, a Reprise, onde Sinatra disse que planejava um disco com seis músicas de Tom e seis de autores americanos, e que a música que mais o interessava era A Felicidade. Tom considerava a letra em inglês horrorosa e disse que queria mostrar algumas canções novas – o que Sinatra recusou, alegando que odiava ensaiar.

Uma das conquistas de Tom foi convencer Sinatra a substituir Nelson Riddle pelo polonês criado na Alemanha Claus Ogerman nos  arranjos. Ogerman tinha trabalhado com Jobim em seu álbum de estreia nos Estados Unidos – o aclamado The Composer of Desafinado Plays, de 1963 ( A menção a Desafinado não é gratuita – Foi esta canção, com gravação de Stan Getz e Charles Byrd – que promoveu a arrancada da Bossa Nova por lá em 1962 ). Riddle nunca se deu bem com a bossa nova – como prova aliás o próprio álbum que Tom e Riddle gravaram juntos – The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim – de 1965. Já Ogerman se associaria com algumas obras primas brasileiras, tais como Amoroso ( O melhor disco de João Gilberto e possivelmente um dos melhores álbuns de música popular de todos os tempos ) e Urubu – também com Jobim. Ogerman foi o nome que Jobim tinha cogitado para o antológico álbum Tom & Elis – César Camargo Mariano teve que suar no teclado para convencer Jobim a aceitá-lo nos arranjos.

Gene Lees, o letrista que trabalhou nas versões para o inglês de diversas canções de Jobim, contou sobre o encontro de Jobim e Ogerman em seu livro Singers and the Song II : “ (O produtor ) Creed Taylor tinha planejado um álbum destacando Jobim. Ele contratou Claus Ogerman para os arranjos. Eu fiquei horrorizado. Eu nunca tinha encontrado com ele, mas desprezava o seu trabalho. Eu só tinha ouvido o seu lado comercial, coisas para gente do tipo  de Leslie Gore, e era horroroso… Eu não tinha ideia de seu brilhantismo.

Claus escreveu a maior parte do álbum em  taxis enquanto atravessava a cidade… O álbum foi gravado em 9 e 10 de Maio de 1963, no velho mas eficiente estúdio da A & R…com Phil Ramone como engenheiro, e foi um sucesso”

Nascido na Polônia em 1930, Ogerman se criou em Munique e tocou piano com as big bands de Kurt Edelhagen e Max Greger antes de imigrar para os Estados Unidos em 1959.

De acordo com Will Friedwald em Sinatra – The Song is You – Ogerman se estabeleceu na década de 60 como um dos poucos orquestradores que pareciam confortáveis com inovações contemporâneas tanto no campo do rock quanto do jazz. Ogerman trabalhou com nomes como o de Stan Getz, Johnny Hodges e Donald Byrd.

Como de hábito, Sinatra deu pouquíssimo tempo para Jobim e Ogerman trabalharem nos arranjos – o que Ogerman mais tarde agradeceria : “Eu tive que trabalhar tão rápido que não pude colocar milhões de notas, então eu deixei os arranjos extremamente transparentes.”

A primeira sessão foi em 30 de Janeiro de 1967, uma Segunda feira chuvosa. Sinatra comentaria depois : “A última vez que eu cantei tão suavemente foi quando eu tive laringite” – lembrando-se de sua hemorragia nas cordas vocais de 1950 ( Sinatrófilos apontam que ele só soou tão suave nos álbuns The Voice, com Axel Stordahl, de 1945; e Close to You de 1956 )

Quando Sinatra e Tom foram à sala de controle ouvir o resultado da primeira gravação – Baubles, Bangles and Beads – o produtor Sonny Burke pediu que Tom cantasse mais forte. “Você tem que entender que ele não começou a carreira cantando para as multidões no Polo Grounds “ defendeu Sinatra.

Tom preferia estar tocando piano, mas os americanos entenderam que a imagem de latin lover era mais associada com o violão, e foi este o instrumento que ele foi obrigado a tocar nas gravações. O músico Al Viola lembra aquelas noites : “Eu não estava lá para tocar violão, mas só para ajudar já que o inglês de Jobim não era muito bom.  E quando eles começaram uma canção (Change Partners, de Irving Berlin ), simplesmente não estava funcionando.  Sinatra queria certa coisa e Jobim estava tendo dificuldades. Frank disse : Deixa o Al tocar. Então, apesar de não estar creditado – e da maior parte das pessoas não saber – Jobim não foi o único a tocar violão naquele disco ( Roberto Quartin – que estava produzindo o álbum com Burke – conta que Jobim cavalheirescamente deu o violão de presente para Viola ).

O sucesso deste álbum levou à gravação de um especial de TV – Sinatra – A Man and his music + Jobim + Ella em Outubro de 1967 e ao convite para um novo álbum em 1969.

De acordo com a biografia de Tom escrita por sua irmã Helena Jobim “Sinatra ligou para Tom e chamou-o para hospedar-se uns dias em sua casa. Queria saber se ele tinha músicas novas para um disco. Tom responde que tem “apenas” 140 músicas novas para serem gravadas. Há um rápido silêncio no telefone. Mas logo depois, Sinatra pede a Tom as partituras e as fitas das músicas para escolhê-las e ir se familiarizando com elas”

Tom se hospedou na mansão de Sinatra – então casado com Mia Farrow – em Palm Springs (Ainda de acordo com Sérgio Cabral, Tom ficou assustado com a placa no portão da mansão – “Proibida a entrada. Atiraremos nos invasores. Sobreviventes serão processados”. Tom perguntou a Sinatra como ele tinha encontrado aquele lugar. “Fácil. Liguei para meu corretor e pedi que achasse um terreno para construir seis casas, sem que uma fosse vista pela outra e com temperatura mínima de 6 e máxima de 25 graus.”) e cada vez que perguntava para Sinatra sobre o disco ele ficava enrolando: “Empesaremos mañana” era a resposta padrão. Neste meio tempo, ficava hospedado por lá e – para seu terror absoluto – indo para Las Vegas no jato privativo de  Sinatra para ver seus shows ( Se ele já morria de medo de aviões comerciais, imagine de um jatinho. Tom tinha tanto medo de avião que cunhou a frase antológica “ O problema de avião é que o defeito dá no ar e a oficina fica na terra”).

O arranjador escolhido desta vez foi o brasileiro Eumir Deodato – outra vitória de Jobim. Deodato, então com 26 anos, tinha gravado seu álbum de estreia em 1964 – Inútil Paisagem – só com músicas de Jobim e desde 1967 estava em Nova York, para onde tinha seguido a convite de Luís Bonfá. Lá conheceu Creed Taylor e começou a arranjar para grandes nomes da música americana.

Quando as gravações começaram, entretanto, Sinatra estava pronto e com as músicas na ponta da língua. Ao contrário do primeiro álbum, este teria apenas canções de Tom, com versões para Se Todos Fossem Iguais a Você, Wave, Por Causa de Você, Samba de uma Nota Só, Água de Beber, Triste, Estrada Branca, Desafinado, Bonita e Sabiá.

Por alguma razão o álbum – que se chamaria Sinatra-Jobim –  nunca foi lançado. Will Friedwald especulou sobre as razões em seu livro:

“Talvez Sinatra não estivesse contente com a capa, que o apresentava apoiado em um ônibus Greyhound ( o que eles estavam pensando?)

ou talvez ele quisesse refazer Desafinado… De qualquer forma, a Reprise colocou sete das dez gravações no lado A de um álbum chamado Sinatra and Company, e do outros sete pouco memoráveis canções pop-juvenis com Don Costa…”

Das gravações, Sabiá e Bonita foram lançadas apenas em LPs italianos e brasileiros e Desafinado ficou proibida até o lançamento das sessões completas de estúdio da Reprise – um conjunto limitado, numerado e caríssimo com 20 CDs.

Ao que tudo indica, o descontentamento de Sinatra com Desafinado se devia ao fato do dueto com Jobim poder ser interpretado de uma forma homoerótica ( Vale lembrar que Sinatra tinha uma implicância com canções que insinuassem homossexualidade. Foi uma das razões pela qual ele odiava Strangers in the Night – “virou música de bicha” reclamava ele.)

Milton Bernhart, que acompanhou as gravações com seu trombone, diria anos mais tarde : “ Ele (Sinatra)  não estava feliz porque tinha umas canções muito difíceis. Não eram apenas baladas, eram músicas artísticas que Jobim tinha escrito.”

Deodato colocou um pouco mais de energia do que Ogerman nos arranjos. Wave mostra Sinatra usando como poucas vezes o grave ( nos “Together” finais.) Sabiá é considerada até hoje pelos entendidos como uma das melhores gravações de Sinatra.  E a proibida Desafinado estava extraordinária. Quando ele canta “…and forget those rigid rules that undermine my dreams “ ( Onde se canta “ Só não poderá falar assim do meu amor, pois ele é o maior que você pode encontrar… em português ) – especialmente na parte grifada – Sinatra nos presenteia com um dos mais belos e inventivos fraseados de sua carreira.

Gene Lees lembrou o processo de gravação destes álbuns, que ele acompanhou de perto : “ Eu fui para o estúdio com Claus e Jobim. Eles começaram a passar algumas canções. Sonny Burke, o produtor, estava sentado com o engenheiro na sala de controle. Lá em frente ficava um sofá onde eu sentei e fiquei olhando através do vidro para a orquestra. De repente eu senti uma onda de choque. Não era que alguém tivesse aberto uma porta – a porta já estava aberta. Eu simplesmente sabia que Sinatra tinha entrado na sala. Eu virei e o vi cumprimentando Sonny Burke e os outros que estavam em volta. Ele tinha este tipo de presença… Sinatra foi para o estúdio. Jobim sentou em um banquinho com seu violão. Claus conduziu o primeiro arranjo, com Sinatra acompanhando. O engenheiro perguntou a Sinatra se ele podia ficar um pouco mais longe da orquestra, já que ele estava tendo problemas para separar o som. “Isto é problema seu” respondeu Sinatra. Ele gostava de ficar perto da orquestra, ser parte dela, e ele se recusava a trabalhar com fones de ouvido. Foi o mais próximo de ser arrogante que eu o vi. Ele era impecavelmente cordial com todos, bem humorado e um profissional absoluto…

Eles fazem outra canção. Depois da primeira passada, Sinatra diz para Burke : “Está muito curta. Vamos arrastar um pouco, para ser mais demorada. ..”

Eles fazem a música mais devagar. No final da gravação, Sinatra diz : “ Nós temos um par de estranhos aí. Nas cordas” Ele queria dizer notas erradas. Eles checam e ele está certo. Outra coisa que eu ouvi sobre ele e que estava certa : Ele consegue ouvir…

Duas semanas depois eu recebo uma cópia em acetato da Reprise. Algumas são melhores do que pareceram na hora, outras nem tanto. Uma das faixas, entretanto, uma canção de Jobim chamada Dindi, me arrepia a nuca. A leitura de Sinatra é uma das mais belas da música popular…é cheia de desejo. Dói. Em algum lugar lá dentro, Frank Sinatra está doendo. Ótimo. Sempre foi assim : O prazer da plateia vem da dor do artista…

Eu fiquei totalmente surpreso com o detalhado trabalho de sua leitura em This Happy Madness ( Nota do Autor : a versão de Lees para Estrada Branca, letra original de Vinicius ). A melodia é uma das antigas de Jobim e é muito difícil de cantar. A letra é minha, e eu acho que posso dizer que sei o que ela quer dizer – qual é o contexto, como atores e diretores gostam de falar… Eu sentei boquiaberto da forma como  ele tinha captado cada nuance das palavras.

As primeiras frases são :

“I feel that I’ve gone back to childhood

And I’m skipping through the wildwood

So excited that I don’t know what to do”

( Nota do autor : Mais ou menos  – “ Eu sinto que voltei para minha época de criança / E eu estou correndo através das arvores / Tão excitado que não sei o que fazer )

Eu escrevi as duas primeiras linhas como um tipo de auto-gozação, como se a personagem da canção se sentisse em um estado de banalidade abismal, um clichê pavoroso ( a referência é à antiga canção Childhood in The Wildwood ) e uma rima falsa. Sinatra “pegou” isto, e canta as duas primeiras linhas com uma borda de dureza e desagrado consigo próprio. E, der repente, na terceira linha, a voz se torna infinitamente suave, como que  em estado de  total espanto. Eu não consegui acreditar quando eu ouvi : Ele pegou não apenas o que a letra dizia, mas também o que ela não dizia “

Embora diversos vocalistas tenham registrado a obra de Jobim – entre eles alguns dos maiores do mundo – nomes tais como  Sarah Vaughan, Gal Costa, Milton Nascimento ( em particular em um concerto com Jobim exibido pela TV Bandeirantes e nunca lançado em disco ), Ella Fitzgerald e mesmo Tony Bennett e Billie Eckstine, as melhores interpretações de Jobim estão nas vozes de Elis Regina ( em Elis e Tom ), João Gilberto ( Em diversos álbuns, mas especialmente em Amoroso, Getz/Gilberto  e João voz e violão) e Frank Sinatra.”

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2 Respostas para “Sinatra e Jobim (Finalmente) Juntos Outra Vez

  1. Quando escutamos Sinatra-Jobim, emudecemos, porque temos juizo. Quando lemos este capítulo contando a história, escrita por Renzo Mora, também ficamos calados. Um banho de informação escorrendo das páginas. Um texto à altura da música maravilhosa que o inspirou. Mais não digo, porque o que for dito, é pouco. O texto sempre sobra.

    • Grande Nei:
      Além de talentoso, grande texto, sempre muito mais generoso do que eu mereço.
      Obrigado, irmão
      Renzo

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