A Mais Moderna Agência Tradicional do Planeta Precisa Aprender a Escrever.

Texto de página inteira comemora a união de duas agências de publicidade. Como eles anunciam orgulhosamente (e gastando uma nota preta) “A W, de Washington Olivetto, e a McCann Erickson agora são uma só”.

Parabéns.

Os chefes, entretanto, devem ter se empolgado tanto com a comemoração que passaram a tarefa de redigir o texto para o assistente do estagiário.

Diz a introdução: “Moderno não se resume simplesmente a estar na moda. Moderno é fazer a moda (Tudo bem, é um clichê medonho, mas nada errado até aqui. Eu não teria cojones de abrir um anúncio de página inteira com uma frase dessas, mas são eles que estão pagando, então, deixa eles serem felizes e “serem modernos fazendo moda”)…Ditar costumes como quem dita frases que serão repetidas por décadas, transformando a publicidade em cultura popular (Tudo bem, é de uma pretensão desavergonhada, com um leve toque de megalomania à la Goebbels, porém nada gramaticalmente errado até aqui, mas prepare-se porque lá vem…)…Moderno é transformar o frescor do dia a dia em tradição. Não importa se o dia a dia é hoje ou se foi cem anos ATRÁS”.

Cuma? Senhores: Cem anos só podem ser atrás. Qualquer redator que tivesse lido mais de um livro na vida teria escrito “Não importa se o dia a dia é hoje ou se foi há cem anos”. Pensando bem, qualquer redator que tivesse lido mais de um livro não ia escrever uma bobagem dessas, de qualquer forma.

Adiante, a agência diz que quer, além de “gerar altos índices de felicidade per capita para todos” (Outra vez: Cuma? Ah, sim, licença poética. Mas “per capita”não é para todos de qualquer forma? Ou deveríamos dizer “a renda per capita anual do Nepal é de US$ 100,00 para todos”? Vamos bem em fazer moda, hein…) “criar o novo, recriar o já existente”.

Eu que sou uma besta ou quando você “recria algo já existente” ele se torna, pela definição do dicionário, “novo”.

Lá pelas tantas, o texto nos brinda com a frase “…o que era moderno nos anos 70 ficou ainda mais moderno nos anos 80 e entrou nos anos 90 elevando a propaganda à categoria de cultura popular. Ou ganhando status de obra-prima, como o comercial “A Semana”, da revista Época…”

Bem: o uso do adjetivo “moderno” duas vezes na mesma sentença mostra que o redator não é chegado (ou não conhece) o que os ingleses chamam de elegant variations – até aí, tudo bem, Henry Watson Fowler, que criou o termo, também não os julgava necessários. Mesmo assim, dói no ouvido.  Mas chamar o próprio trabalho de obra-prima, por mais banalizado que o termo esteja, é um pouco de exagero, não é? Já houve obras-primas de propaganda, as catedrais são exatamente isso: instrumentos de propaganda da religião. Mas entre a Capela Sistina e um comercial de revista existe uma pequena distância.

Chamar um anúncio alheio de obra-prima mostra falta de familiaridade com arte de verdade – nada que um passeio por um museu não cure. Depois de conhecer, sei lá, Picasso, o cara vai entender que “reclame” não pode aspirar à condição de obra-prima.

Já chamar o próprio anúncio de obra-prima revela transtornos psiquiátricos e delírios de grandeza que recomendam uma visita urgente ao médico.

Se eu fosse cliente desse troço, estaria morrendo de vergonha…

PS – Dois amigos, entre eles o grande Nei Duclós, chamam minha atenção para o fato de que o uso da frase “cem anos atrás”, dentro do contexto, não chega a ser um erro de português. Eles estão certos.

Pego em minha ignorância, ainda assim não me rendo: a frase é ruim de doer.

Mantenho a esculhambação.

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