CSI Barueri

Externa.
Dia.
Sol.
Temperatura de 28 graus, não mais do que isso.
Os peritos aproximam-se do corpo da jovem, bonita, aparentando 22 anos, loira, pernas bem torneadas. No meio do peito, uma chaga vertical que afastou as costelas.
Ao lado dela, ainda vermelho, seu coração.
– “Ela está morta, tenente” diz o policial. Se ele esperava alguma menção à sua rapidez de raciocínio e dedução, perdeu seu tempo.
O tenente observa o corpo e sussurra, com impressionante sagacidade:
– “Bem, se alguém achava que ela não tinha coração, a questão está resolvida”


Sai de quadro.
Entram os créditos, mostrando o policial ruivo passeando por Alphaville, em Barueri, São Paulo. Trilha de rock. O tenente apoia-se muito no uso de óculos para dar vida ao papel. Tirar os óculos é um momento crítico de sua atuação.

Corta para sala do legista, Interior.
O corpo está estendido na maca metálica e o médico examina o coração extraído.


– “O que temos aqui, doutor?” diz o tenente, tirando os óculos. Por que ele usa óculos dentro do necrotério fica sem explicação

-“Bem, tenente, encontramos indícios de saliva no coração…”


– “O que significa isso?” pergunta o tenente. Ele, como vimos, não é exatamente o orgulho da força policial de Barueri.
-“O assassino… bem, ele retira o coração ainda pulsante, com a vítima viva, e parece que lambe o coração. Coloca seus lábios nisso, acredita?”
-“Então, enquanto não o pegarmos… nenhum coração estará a salvo” Diz o tenente, recolocando os óculos e saindo de quadro.
Ouvimos móveis quebrando e percebemos que o tenente, de óculos escuros na meia luz do morgue, tropeçou em dois cadáveres e estatelou-se no chão, levando com ele dois litros de formaldeído.

Corta para saída de um show. Externa.
Noite.
Chuva. Não torrencial. Chuvinha chata, daquelas que não vão embora nem molham muito. A temperatura é de 22 graus. Nota-se que a umidade relativa do ar está baixa.
Uma garota parecida com a morta aproxima-se do cantor, cujo rosto não é revelado pela câmera nesse momento. Pede um autógrafo. Ele concorda, desde que ela o acompanhe até os fundos do luxuoso templo da música alphavilleano.
Quando ela se aproxima, o cantor tira uma faca e enfia em seu tórax.

Ato contínuo, toma seu coração nas mãos e o arranca.


Câmera fecha no momento em que ele o leva aos lábios.
Vemos, então, com a abertura da câmera, que o assassino é o cantor Fábio Júnior, com os lábios cobertos de sangue.
Entram os créditos finais e revela-se o título do episódio:
“Um Beijo No Coração”
“CSI Barueri”

Volta para a cena do crime. Fábio atira o coração inerte no chão e sussurra: Obrigadúuuu

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