Waldick no Templo da MPB

1971.
Naquela época, música brega era música brega e música de classe média era música de classe média. Depois, com a ascensão de novos ricos, com muita grana e pouca bagagem cultural, quando jogadores de futebol começaram a ser modelos de comportamento, mudou tudo.
Hoje, é comum gente ouvir sertanejos e cantoras de axé music como se fosse música – e, para compartilhar a maravilhosa experiência, no último volume.
De qualquer forma, foi naquela época, em que a classe média ainda tinha algum pudor de ter mau gosto, que explodiu um dos artistas mais extraordinários do país: Waldick Soriano, autor de “Tortura de Amor”, um clássico do cancioneiro romântico.

Waldick era, claro, do time brega. Referência “óbvia” de mau gosto (assim como qualquer babaca que vai para nova York e vê o Fantasma da Ópera volta pensando que as cafonices do Andrew Lloyd Webber são referência “óbvia” de refinamento – gente que obviamente nunca viu – nem verá – um musical de verdade, assinado pelo Stephen Sondheim, sem lustres que caem ou helicópteros pousando no palco).
Conselho: Desconfie sempre das referências “óbvias”.
Mas Waldick, para muito além do terno preto, do óculos escuro e do chapéu – uma tentativa pueril de emular Durango Kid – tinha uma coisa rara: talento.
Muita gente pensa como o Cartola, sem educação formal, escreveu suas canções. Se não fosse o preconceito, possivelmente Waldick levantaria o mesmo tipo de questão.
Para completar, Waldick tinha um charme meio agreste, de cafajeste, cultivado em centenas de bordéis e lapidado no ambiente pouco amigável dos garimpos, onde um “bom dia” atravessado vale uma peixerada inteiramente grátis.
E, no começo da década de 1970, nos bastidores do programa do Chacrinha, Waldick encontrou Beki Klabin, a socialite que tinha sido casada com o empresário Horácio Klabin.

Começou um romance altamente improvável, e Beki, com suas conexões, levou Waldick para cantar nas boates Flag, no Rio e Em São Paulo.

A Flag recebia a nata da música nacional – Nara Leão e Dick Farney estavam entre suas atrações frequentes.
E eis que surge o show de Waldick no Flag, com acompanhamento ao piano de nada menos do que Luis Carlos Vinhas, jazzeiro da pesada, que gravou com Elis Regina e Maria Bethânia – e que muito provavelmente nunca tinha ouvido suas músicas.
Waldick entrou intimidado. Daí foi se soltando, conquistando um público a princípio meio arredio e, como contou em sua biografia, quando encerrou com o hit “Eu Não Sou Cachorro Não”, tirou o paletó, subiu no piano e abriu a camisa. A mulherada não resistiu. Waldick foi agarrado, levou beijos de língua, foi apalpado.
Um comportamento que se fosse adotado pela mulherada das feiras e circos onde ele se apresentava mais habitualmente, certamente terminaria com algumas dezenas de mortes.
O insuspeito Zózimo Barroso do Amaral disse em sua coluna no JB que foi a noite mais divertida do Rio de Janeiro em muito tempo.
Pena que não haja um registro destas apresentações. Ouvir Waldick e Vinhas juntos deve ter sido uma experiência única.
Pedro Alexandre Sanches, que sabe das coisas, definiu o cantor perfeitamente em seu blog: “…também tenho encontrado “tempo” para dar ouvidos embasbacados a um veterano morador lá de fortaleza, ceará, o velho e nobre waldick soriano, samba carioca de raiz, blues do delta do mississippi, buena vista social club, jazz’n’roll, fandango sulista e soul da motown, tudo junto reunido num “cafona” só….”

8 Respostas para “Waldick no Templo da MPB

  1. Renzo, ainda bem que no começo da postagem voce escreveu o que para mim foi a UNICA COISA boa que saiu de Waldick Soriano: Tortura de Amor, que realmente é uma obra prima que nem ele creio eu soube como teve a capacidade de compor.

    Waldick antes de morrer, morou muito tempo em Fortaleza, na bucolica praia de Iracema e todos os dias era figura tarimbada nas calçadas da cidade, morreu mas deixou TORTURA DE AMOR, que repito, NA MINHA OPINIÃO a unica musica dele e que ele cantava que eu parei e paro para escutar. Abraço

  2. Pô, rapaz, queria muito ter tido a chance de cruzar com o veterano Waldick aí em Iracema para poder abraçar a lenda.
    Abração
    Renzo

  3. Uma Historinha acontecida comigo e Waldick:

    Eu estava em um voo voltando de Sp a dois anos atras e tivemos que descer em Natal por conta de um problema na aeronave, quando tudo se reestabeleceu e voltamos para as poltronas apareceu na porta da aeronave nada mais e nada menos que Waldick, havia pedido uma “carona” de Natal a Fortaleza onde morava já nessa época, entrou na aeronave vestido a carater, paletó preto, chapeu preto e uma copo de Whisky na mão, parou , chamou a aeromoça e disse bem perto de onde eu já estava: “Olha moça, voce vai ver agora o que é um cantor sem fama e fora da midia, vou caminhar até a minha poltrona que fica no fundo desse avião e ninguem vai me reconhecer, voce verá”

    Mais que imediatamente eu levantei, e disse em voz bem alta: GRANDE WALDICK SORIANO, voce é meu idolo..rs.. e pedi para minha esposa bater uma foto nossa, até o final do avião, foram dezenas de fotos e a bagunça ficou geral..rs..fiz minha parte o resto ficou por conta dos demais…abraços

  4. Olá Renzo,

    Rapaz, que história!
    Por coincidência assisti num desses dias de Carnaval, no Canal Brasil, o documentário excelente da patricia Pillar que termina muito triste, com o Waldick no fim da vida, solitário e doente.
    Realmente é uma pena que não tenha nada registrado destas apresentações.

    Abração,

    Sávio

    • O documentário é da Patrícia Pillar e é muito bom. Aliás, além do documentário, saiu um DVD com um show do Waldick também produzido por ela, acompanhado de orquestra. Vale a pena ver os dois.
      Comoventes.
      Abração, Irmão
      Renzo

      • É amigo, valeu a dica, vou assití-los com carinho.

        Grande abraço,

        Sávio

  5. Pois é rapaz, Waldik Soriano até hoje continua sendo meu ídolo, entre 81 e 87 a gente se falava por telefone, depois que êle saiu deixou a Ilha do Governador aquí no RJ aí perdí o contato. Para mim Waldik é um um grande compositor interprete muito bom. Atenciosamente: Nonatto Barros

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