Folha Relembra 30 Anos do Show de Sinatra no Maracanã

Há precisos 30 anos eu – e o Ruy Castro – estávamos no Maracanã para presenciar um milagre: Um show que tinha tudo para dar errado – montagem de palco, chuva, inadequação do lugar – e que resultou em um momento inesquecível para os 175 mil felizardos que foram ver Frank Sinatra se apresentar para o maior público de sua carreira.


A Folha lembrou-se da data e nos presenteou com um texto delicioso do grande Ruy.
Vai aí a transcrição – além de um complemento de Thiago Ney sobre a última visita de São Francisco de Hoboken ao Brasil.
Sobre esta segunda visita, conversei algumas vezes com o Dr. Henry Maksoud. A ideia dele era que Elis Regina abrisse o show. Elis adorou a ideia, mas o pessoal de Sinatra não concordou e colocou no lugar a orquestra de Don Costa.
Aparentemente, o relacionamento de Sinatra com o dono do hotel não foi dos mais tranquilos. Apesar da cordialidade de Sinatra com Maksoud no palco, nos bastidores a antipatia foi forte e recíproca.
Consta que Maksoud ofereceu seu avião para o deslocamento do cantor pelo país – ao que Sinatra teria respondido “só se for sem o dono”
Vai aí o texto do Ruy:
A primeira vez

Há 30 anos, apresentação de Frank Sinatra no Maracanã desafiou limitações técnicas e estrutura precária para colocar o Brasil na rota dos grandes shows
RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

Foi a primeira vez que um megastar internacional precisou de um estádio de futebol para se apresentar para uma plateia brasileira: Frank Sinatra (1915-1998), para 175 mil pessoas, no Maracanã, em 26 de janeiro de 1980 -há 30 anos.
Foi também mágico: a platéia ficou extática quando, às 21h em ponto, Sinatra, 64, pisou o palco erguido no gramado e começou a cantar “I’ve Got the World on a String”, “I’ve Got You Under My Skin”, “The Lady Is a Tramp”. E só despertou do transe às 22h15, quando, 20 clássicos depois, ele se curvou pela última vez para o maior público de sua carreira, desceu a longa passarela e sumiu de volta pelos camarins.
Durante os 75 minutos de show, ninguém na multidão podia avaliar o que custara pôr de pé um espetáculo como aquele num país sem know-how no gênero -porque Sinatra e sua música engoliam o Maracanã, a arquibancada e cada um ali. E, no entanto, se algo desse errado, o Brasil talvez fosse riscado para sempre do roteiro dos grandes shows que começavam a tomar os estádios na Europa e nos EUA. Mas tudo deu certo. Foi uma vitória do empresário carioca Roberto Medina, pai da ideia de trazê-lo e futuro criador do Rock in Rio. Ali abriu-se o caminho para as futuras atrações do Maracanã e de outros estádios brasileiros: Paul McCartney, os Rolling Stones, Madonna.
Até então, uma coisa era o Maracanã receber o papa João Paulo 2º ou o pastor evangélico Billy Graham, promover a chegada anual do Papai Noel ou abrigar regularmente um Flamengo x Vasco para 150 mil pessoas. Outra era servir de palco para o cantor mais exigente do mundo.

A voz
Ao contrário deles, Sinatra precisaria de um minucioso e complexo projeto de som para que sua voz, emoldurada pela orquestra de 40 figuras regida por Vinnie Falcone, chegasse ao mesmo tempo e com os mesmos volume, timbre e clareza em todos os pontos do estádio.
É preciso lembrar que Sinatra era um cantor -não um performer que compensasse a pouca voz com rebolados, canhões de luz ou fumaça e anarquia sonora. Cantores existem para ser ouvidos.
Para isso, a Artplan Publicidade, empresa de Medina, e a Sinatra Enterprises contrataram a A-1 Audio, firma de Los Angeles especializada em montar sistemas de som em grandes espaços. O convite à A-1 foi feito em novembro de 1979; o show seria em janeiro de 1980. Ou seja, habituados a trabalhar com prazos de seis meses a um ano, eles teriam menos de dois meses para vir ao Rio, conhecer o estádio, criar o projeto, escalar os engenheiros e desenhistas, escolher o equipamento, transportá-lo e, sem ninguém que falasse português, montá-lo com mão de obra brasileira. A Artplan lhes providenciou intérpretes, mas estes, fluentes em praia, feijoada e Carnaval, não eram doutores em eletrônica. E tudo isso torcendo para que a chuva, abundante no período, não castigasse muito o Rio naquele verão.
Quando o equipamento chegou -25 toneladas de aparelhos em oito contêineres de 12 m3, lotando um Boeing 747 de carga da PanAm -, várias surpresas. Em vez de rampas e guindastes para içá-los, a força bruta e mal paga dos estivadores cariocas; no lugar de grandes caminhões fechados e acolchoados para transportar a preciosa tralha, do Galeão ao estádio, pelas ruas da cidade, uma pequena frota de caminhões abertos, sujeitos a pó, choques e roubo; faltando sete dias para o show, o palco -uma estrutura a céu aberto, em forma de estrela, bem no grande círculo- ainda não estava pronto; e, sem ele, não havia como montar o som.
Não me pergunte como, mas eles conseguiram. Para alguns, foi uma das maiores façanhas da engenharia sonora na história. Só faltava superar um obstáculo: a chuva -que caiu, mansa, mas constante, durante todo o dia do show. Por causa dela, não houve passagem de som -os técnicos não queriam molhar os microfones, nem os 20 violinistas, expor os seus Stradivarius. O carioca ignorara a chuva e fora para o Maracanã do mesmo jeito, sem saber que, se a água não desse uma trégua até as 21h, não haveria show. Pois, às 20h53, os organizadores decidiram que essa trégua se dera e o show aconteceria. Faltando apenas sete minutos, toda uma estrutura foi posta para funcionar.
Sinatra adentrou o palco, olhou para cima e disse: “Meu Deus”. Na arquiba, eu também.

Em 1981, Sinatra cantou para poucos em São Paulo

Cantor se apresentou para apenas 700 pessoas em teatro do hotel Maksoud Plaza

A série de quatro shows foi o evento do ano na capital paulista; além do show, a plateia jantou e ganhou um catálogo com um compacto

THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

Se em 1980 Frank Sinatra precisou do Maracanã para cantar “I’ve Got You Under My Skin”, em agosto de 1981 ele acomodou sua voz no minúsculo teatro do Maksoud Plaza -hoje decadente, mas à época o mais elegante hotel de São Paulo.
Entre 13 e 16 de agosto daquele ano, Sinatra se apresentou para uma plateia de apenas 700 pessoas por noite. Ver Sinatra tão de perto fez dessa série de shows o evento do ano em São Paulo.
Bruna Lombardi e Regina Duarte estavam lá. Jorginho Guinle “fez-se acompanhar de um grupo de mulheres lindas”, testemunha o jornal do dia.
“Estava grávida [de João, seu terceiro filho] de oito meses e, por isso, antes do final do show fiquei cansada. Fui embora antes de acabar, o que lamento muito”, lembra Regina Duarte.
Nas quatro noites, Sinatra subiu ao pequeno palco às 23h. Porque às 21h iniciava-se o jantar, preparado por Roger Vergé. Do extenso cardápio, lia-se:
“Lagosta cozida com pouco sal; fundo de alcachofra com creme sofisticadamente rosado e gostoso; filé mignon com molho repleto de azeitonas sem caroço e alguns cogumelos; doce recheado de chantilly (tipo mil folhas)”.
Além de ouvir -e ver bem de perto- Frank Sinatra, a plateia levou para casa uma gravura de Wesley Duke Lee, um catálogo ilustrado e um compacto com as faixas “New York, New York” e “That’s What God Looks Like to Me”.
“Ainda tenho o convite guardado”, conta o advogado Marcos Aurélio Ribeiro, que esteve no primeiro dos shows. “Era uma noite fria de agosto, então os homens estavam todos de terno e as mulheres, de casaco e vestidos longos.”

Vestido longo
“O Maksoud era um hotel fantástico na época, então assistir ao Frank Sinatra ali era um acontecimento de gala”, relembra a advogada Jane Monachesi. “Só se falava no show e na dificuldade de comprar os ingressos. Porque, além de caros, eram poucos. Durante o show, o Frank Sinatra estava brincalhão, descontraído, parecia que ele estava cantando na sua casa. A formalidade foi quebrada quando o show começou.”
“Contei, entre os carros que chegavam, mais de duas dúzias de Mercedes, um BMW e um Cadillac Supreme. Ah, sim, um Mustang 69”, escreveu, sobre a primeira noite, Mino Carta na Ilustrada de 16 de agosto de 81.
Comandada pelo maestro Vincent Falcone, a pequena orquestra acompanhou Sinatra em canções que não poderiam faltar, como “Strangers in the Night”, “I’ve Got You Under My Skin” e “My Kind of Town”, entre outras, durante os 75 minutos de apresentação.
Logo após a série de shows, Sinatra pegou um helicóptero para o aeroporto.
Ali, no teatro do Maksoud Plaza, foi a última vez que o Brasil ouviu Frank Sinatra.

12 Respostas para “Folha Relembra 30 Anos do Show de Sinatra no Maracanã

  1. Renzo, SÓ TENHO A AGRADECER por voce existir e me propiciar com essa emoção que é ver Sinatra no Maracanã..explico o porque e faço algumas outras observações sobre esse dia INESQUECIVEL para mim, para voce e nosso País.

    Na época eu tinha apenas 14anos, mas lembro que meus pais foram ao show, sairam daqui de Fortaleza para visitarem alguns parentes no Rio e aproveitaram e viram Sinatra.Eu com 14anos ja gostava de Sinatra, ví o show pela tv, mas não lembro muito.

    Algumas observações que faço do texto acima e do video do Maracanã:

    Primeiro achei fantastica a colocação “SÃO FRANCISCO DE HOBOKEN”,inteligente e criativa.

    Quanto a abertura de ELIS REGINA para o show, me desculpem os fã de Elis, mas igual a Sinatra eu não concordaria, tiraria todo o glamour que o evento tinha e merecia, particularmente eu preferiria Nelson Riddle a Don Costa, mas creio que a época não permitia.

    Ví o video de Sinatra agora com o cuidado de PAUSAR sempre que o rosto de Sinatra aparecia em close, já fez isso? terá uma surpresa, ele fica com o rosto muitas vezes estaziado e fascinado, creio que com o publico e tamanho o carinho que foi recebido e ouvido.

    Percebi tambem que a adentrar ao campo, Sinatra passou mais de 3 minutos só vendo o publico aplaudi-lo e ele reverenciando o mesmo, FANTASTICO!

    Tenho um amigo que mora no Rio e me contou um fato interessante, creio que voce pode confirmar, negar ou alterar..rs.: O pai dele foi garçon em um ou mais shows de Sinatra no MAKSOUD e ele disse que seu pai havia dito que a LAGOSTA servida antes do show era CONGELEDA e não COZIDA como havia no cardápio gerando alguns contratempos aos convidados, mas que na hora que Sinatra entrou no palco, foi tão fantastico que todos esqueceram o fato e no dia seguinte nem foi comentado.

    Por fim quero fazer-lhe uma pergunta que me intriga até hoje: Porque NADA de Sinatra referente ao MARACANÃ e ao MAKSOUD foi posto a venda até hoje? DVD, CD, DOCUMENTARIO,ETC?…Impressionante essa lacuna que aflinge meu coração e dos fãs de Sinatra a esse respeito..tens algo ai para acalentar esse nossos sentimentos?..rs..grande abraço e MUITO OBRIGADO A VOCE, RUI E MEDINA….Roberto Carvalho

    • Grande Roberto:
      O show do Maracanã,de fato, foi inesquecível. O Roberto Quartin, meu amigo querido, tinha o show todo gravado e, depois de sua morte, este e outros materiais raros foram mandados para a Nancy, filha do homem, que escolhe o que vai ser lançado.
      Talvez uma explicação seja o fato de que o show do Rio foi emocionante – talvez até demais, talvez até para o Sinatra.
      Sinatra, diante da maior plateia de sua vida, esqueceu algumas letras (incluindo Strangers In The Night), teve o constrangimento do beijo do beijoqueiro ao fim de “My Way”, cantou músicas que não cantava há anos, como “Corcovado”, sem o devido ensaio.
      Por conta disso, não foi um show “impecável” do ponto de vista meramente musical.
      Mas ele estava, isso eu garanto, mais do que feliz.
      Ao final do show, entre aliviado e deliciado, ele corria por todos os cantos do palco, empapado de suor mas com um sorriso enorme nos lábios, por um longo tempo.
      Os brasileiros não fizeram por menos e deram ao homem a maior ovação de sua vida. No meio do show ele disse que aquele era o momento mais importante de sua vida profissional – e não acho que fosse demagogia.
      Eu acho que nenhum destes pequenos erros tira a grandeza do acontecimento. Penso que, se fosse lançado, o show do Maracanã seria um sucesso de vendas, mas o perfeccionismo das filhas de Frank pode ser uma barreira para o lançamento.
      Já o show do Maksoud, disponível em CDs não oficiais, musicalmente é bem melhor. Frank optou por uma banda sem cordas, então em duas músicas mais românticas ele optou por ser acompanhado apenas por solistas – pelo piano em “These Foolish Things” e em “As Time Goes By” apenas pelo violão.
      Este sim, se lançado, estaria desde já entre os grandes registros musicais de Sinatra ao vivo.
      Ah, sim: a lagosta. Eu não estava no show do Maksoud – vi o homem chegando pelo lado de fora do hotel – mas a lagosta não deve ter sido o pior. O pagantes (US$ 600,00 per capita) tiveram que tomar uísque Passport, nacionalizado, marca da qual Sinatra tinha sido garoto propaganda, em seu primeiro contato com o Medina. (Aliás, profissional até o extremo, Sinatra gravou o comercial no dia da morte de sua mãe, em um acidente de avião).
      Mas, quando o maior cantor do mundo está no palco, quem é que vai se preocupar com isso, não é?
      Abração, amigo
      Renzo

  2. Muito boa suas colocações como sempre, e eternamente grato fico a voce, mais uma vez por ser um porta voz tão fidedigno e realmente sabedor dos fatos quando se refere a Sinatra.

    Acho no entanto que se as filhas do ” homem” tiverem um “empurrãozinho” de um amigo meu bem acolá..rs..que com certeza deve ter como se comunicar com elas e dá a ideia para que lancem esse trabalho do maracanã , já que mudaram de gravadora pelo que estou sabendo, com certeza elas darão um jeito de lançar de uma forma que torne o trabalho da forma que elas gostariam que ele fosse apresentado,pois hoje temos varios recursos que anteriormente não tinhamos..não é verdade? abraço e parabéns um milhão de vezes pelo trabalho que realiza. Roberto

  3. Renzo só mais uma dúvida: Já que o show foi televisado pela rede Globo, eles não teriam a copia da fita do show? Claro que para eles trabalharem em cima da mesma eles teriam que ter a autorização da famila Sinatra, mas será que não teriam essa fita? grato..Roberto

  4. Ele foi garoto propaganda do Passport? Uau, jamais beberei outra dose com o mesmo paladar.

    Agora, apesar do preço exorbitante do ingresso, antes o Passport que o Drurys, não? A experiência seria bem pior…

  5. Luiz Alexandre, tudo bem? para voce sentir melhor o paladar de Sinatra, faça como eu..rs..beba somente JACK DANIEL’S..no meu caso que tenho resistencia a cevada e sempre que tomo alguma bebida que contenha esse produto tenho dor de cabeça o Jack entra bem, pois é composto por MILHO e não cevada…rs..abraços..Roberto

    • Luiz Alexandre e Roberto Carvalho:
      O post do Passport é dedicado a vocês.
      Saúde.
      Ou, como o Sinatra brindava: “Que vocês vivam 100 anos e que a última voz que vocês ouçam seja a minha (a do Sinatra, claro, não a minha mesmo…)
      Abração
      Renzo

    • Ah, espero ter a oportunidade de beber Jack Daniels ainda em vida. Por ser uma bebida mais cara, nem me vêm em mente quando penso em algo pra beber. Mas uma vez bebi um Bourbon, Jimmy Bean, que junto de uma Skol que eu, tolamente, resolvi beber, me causou uma das piores bebedeiras de minha vida. A minha sorte é que não lembro de nada, o que impede minha memória de me torturar.

      Sobre cervejas, eu particularmente sou grande entusiasta. É uma espécie de amor bandido, a maldade que só me faz bem. Quero dizer, quando respeito certos limites e não a consumo de estômago vazio, claro…

      • Luiz:
        Eu já fui de beber mais. Agora estou light. Mas, quando bebia, principalmente em bares suspeitos, sempre pedia Jack Daniels porque o aroma é inconfundível e reduz muito a chance de pagar/beber gato por lebre.
        Mas misturar Jack Daniels (ou Jimmy Bean) com cerveja é pedir de joelhos para ter ressaca física e moral.
        Um veneno de cada vez, companheiro.
        Abraços etílicos
        Renzo

  6. Pingback: PS – Tudo Começou Com Uma Dose Passport « Renzo Mora

  7. Valeu Renzo!

    É amigo, texto sensacional, gostei do “só se for sem o dono”.
    Bem Sinatra!

    Abração e parabéns!

    Sávio

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