Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, Fica Em Casa

Adoro as tardes londrinas que passo em casa, só eu e minha arte, o cheiro de clorofórmio que lembra o hálito de minha saudosa mãe. Dona Walkiria, minha progenitora, partiu há 20 anos. Um belo dia, ela simplesmente pegou as malas e alugou um apartamento em frente ao meu. Nunca mais a vi. Tinha um caso desafiador em minhas mãos trêmulas de emoção. Lord Cavendish pediu que eu empalhasse seu alce de estimação. O que poderia ser uma tarefa fácil para um hábil taxidermista como eu, mostrou-se um desafio enorme quando vi que o animal fora cremado. Minha tarefa era aplicar um preparado de formaldeído em cada pequena cinza e devolvê-la ao vaso etrusco onde Libby, o alce amestrado, repousava para sempre.
“Para que embalsamar um alce cremado?” pergunta você. Pois é, pode perguntar o que você quiser que eu não vou responder. Não te conheço. E tem mais: acordei com os cornos virados. Frankie Brown, o cordial detetive, que trabalha de graça para a Scotland Yard, que ajuda velhinhos a atravessarem as perigosas ruas londrinas, que ensina a turistas sul americanos que a Torre Eiffel não fica na Inglaterra.
Eu sou assim a maior parte do tempo. Fleuma é meu nome do meio.
Mas quando eu acordo com os cornos virados, não tem quem me aguente. Então é isso aí. Melhor não mexer comigo hoje. Tô a fim não. Fica na sua.

O inspetor Lloyd já estava lá dentro de minha casa, vendo fotos de nu artístico que minha mãe, dona Walkiria, produzira ao lado (e em baixo) de um jumento dotado de uma jeba descomunal. O nome da série era “Ode à Grandeza”.
“Porra, esse teu trabalho é chato pra cacete” disse Lloyd, com uma grossura que não condizia com o cavalheiro que a Scotland Yard contratara para os crimes mais delicados do Reino Unido.
Tirei o monóculo de ampliação, depositei uma cinza de Libby no vaso etrusco e perguntei o que ele fazia ali.
“ O crime, Frankie… Pode acontecer em qualquer lugar. Quero sempre estar um passo à frente dele”
Os peritos interromperam a coleta de digitais para anotar sua frase naquilo que algum dia seria um livro com os aforismos do Inspetor Lloyd.
“Chega, rapazes”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine empalhando um alce.
A razão pela qual eles colhiam impressões digitais em meu estúdio era um mistério completo, quase tão enigmático quanto o fato de eles usarem roupas de estudantes secundaristas.
Mas, temia eu, haveria poucas sessões de empalhamento de cinzas daqui para frente em minha casa, um tranquilo apartamento de frente ao de uma ex stripper meio piranhuda que posava fazendo sexo com animais.
Lloyd, visivelmente entediado, foi para a cozinha testar sua receita de omeletes sem ovos.
“O crime, Frankie, não é o mero desarranjo das leis naturais que forjaram a civilização.” disse ele, colocando óleo na frigideira
“Como assim, Lloyd?”
“Sei lá. Só tô puxando assunto. Tem alecrim?”
Lloyd. Grande inovador da culinária, mas um visitante chato pra cacete.
“Na parte de cima da biblioteca, entre o Paulo Coelho e o dicionário de gírias eslovacas”, oriento.

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine empalhando um alce cremado com um chato interrompendo a toda hora.
“Era o queríamos saber” diz Lloyd, despedindo-se de mim desenhando um Pentagrama com sangue no meio de minha sala, invocando o demônio e colocando na vitrola um álbum de Mr. Ed, o Cavalo Falante, com a orquestra de Ray Conniff.
O demônio surge em minha sala, com os olhos de quem acabou de acordar de uma soneca e o inconfundível odor de enxofre que é o Eau de parfum do Coisa Ruim. “Tem omelete?” pergunta ele.
“Só sem ovo” diz Lloyd.
“Manda” diz o cão chupando manga, o senhor das trevas, o anjo caído. “Mas sem alecrim que eu sou alérgico” completa ele.

3 Respostas para “Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, Fica Em Casa

  1. O bicho da foto é Pepe, o Urso Taxidermista, Ele empalhou um clone do Renzo Mora, com 30 anos a menos, e todo dia vai lá e descola um cafuné. O Renzo taxidermado foi eternizado na sua pose característica, o de passar a mão no ar para lembrar a urdidura da voz de Billy Eckstine.

    Pepe aprendeu o ofício com Frankie Brown, mas jamais foi chamado pela Scotland Yard. Lloyd tem medo dos conhecimentos de Pepe sobre as origens do sapateado e nem se atreveria a ter uma recaída de Sammy Davis Jr. na frente do cara. Poderia pagar o maior mico no dia seguinte, ao ler no Times algo desagradável sobre sua performance, num artigo assinado pelo pseudônimo de Pepe, Don Fabricio de Villarte Posadas, que escreve em inglês com sotaque correntino.

    • Nei:
      Uma pequena imprecisão: o animal empalhado não é um clone de Renzo Mora. É o próprio Renzo Mora, eternizado em uma época em que ele tinha brilho no olhar, um sorriso nos lábios, esperanças no coração e controle do esfíncter, além da extinta capacidade de obter ereções portentosas.
      Gone With The Wind, Nei, Gone With The Wind…
      Abraços, Irmão
      Renzo

  2. Não acredito que um dia você tenha sido assim, com brilho no olhar, sorriso nos lábios, viagrado, etc., ou seja, vítima da taxidermia. Esse que descreves deve ser mesmo um clone.

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