Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, Vai ao Zoo

Odeio ir ao zoológico britânico. Talvez por não gostar de ver os pobres animais presos. Ou soltos. Na verdade, gosto mesmo de vê-los empalhados, o que talvez tenha sido o motor secreto de minha carreira como taxidermista. De fato, olhando em retrospecto, a maior parte de meus serviços é feita em animais. Vez por outra surge a solicitação de empalhar uma bicicleta de estimação ou um cadeado de segurança, mas animais, sem dúvida, estão no topo da lista. Lembro quando Lord Cavendish pediu que eu empalhasse sua esposa. Recusei-me, argumentando que minha ética profissional me impedia de trabalhar com seres humanos, especialmente aqueles que, como Lady Cavendish, continuavam vivos.

Princípios. Este é o meu nome do meio.

Mas o dever me levava aos locais mais improváveis, e foi assim que entrei no zoo naquela manhã nublada. O bilheteiro me olhou com estranheza, como se reprovasse o fato de eu usar gravata borboleta em um zoo. Ou talvez o fato de eu não usar calças nem cuecas, mas eu não estava nem aí para as idiossincrasias de um porteiro obcecado com a moda.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver a brisa soprar através de uma orquídea rara, mas não tem brisa, não tem essa frescura de plantinha cultivada, você está apodrecendo e parou de respirar.

O inspetor Lloyd já estava lá dentro, lendo um grosso calhamaço que tanto poderiam ser as memórias de Dercy Gonçalves quanto o cardápio da pizzaria que fazia entregas dentro do perímetro do parque – exceto aos sábados ou perto da jaula das hienas. Lloyd saúda minha chegada como de hábito, tentando me convencer a entrar em seu clube gourmet de degustação de ostras, frequentado por especialistas que desprezavam os amadores,  aqueles que insistiam em abrir a concha para avaliar o sabor. Lloyd e seus parceiros preferiam fazê-lo passando a língua no casco externo do fruto do mar, categorizando-o de acordo com a aspereza.

Entrar para o clube demandava tempo, dedicação, um paladar apurado e band aids para a língua.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande conhecedor de culinária exótica.

Apesar da boa intenção, sua demonstração de como diferenciar ostras de mariscos maduros usando o tato e agulhas de vitrolas só consegue irritar os peritos, obrigando-os a interromperem a coleta de digitais para espancá-lo com violência. Logo percebi que não só era uma ótima ideia como também eu deveria tê-los imitado.

“Chega, rapazes”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine fazendo flexões de braço sobre um chapéu panamá.

“Venha comigo” responde Lloyd, limpando o sangue das narinas e erguendo-se com dificuldade. Um dos peritos tenta reiniciar a pancadaria, mas  é interrompido pela visão da ostra que se projetava do paletó de tweed do veterano policial.

Mas, temia eu, haveria poucas sessões de degustação de iguarias marítimas daqui para frente no zoológico londrino, construído na época em que os britânicos ainda não conheciam o sistema de gradeamento de jaulas, o que tornava a fuga de animais constante.

Lloyd me acompanha até a jaula dos leões, monumentais feras que são a principal atração do parque, logo depois do guia exibicionista que abria a capa de chuva e mostrava seu membro minúsculo para grupos de estudantes.

“Ele foi uma vítima da complexa gama de sentimentos que despertava nos animais” – explicou-me Lloyd sobre os antecedentes da vítima “ nos gorilas, a luxúria. Nos elefantes, o ódio. E nos leões, o desejo…”

“Como assim, Lloyd?”

“Harry, o tratador de animais. Ia dar comida para os gorilas que tentaram sodomizá-lo. Daí, saiu correndo e caiu na jaula dos elefantes, que o pisotearam e o atiraram para os leões, que por fim comeram partes significativas de seu corpo”

Olho para a cabeça de Harry, separada do corpo e aninhada entre as patas de um leão.

“E aí? Ele está morto, Frankie?” pergunta o inspetor, lambendo uma ostra fechada, como exige seu clube de gastronomia.

“Lloyd… Seria pouco profissional de minha parte avaliar sem ver o corpo todo, mas minha opinião profissional é de que as pistas apontam para essa direção”

“ Então jamais saberemos ao certo?”

“Certos enigmas, Lloyd, assim como a sexualidade de Barry Manilow ou a verdadeira idade do menino Ferrugem, talvez tenham nascido para permanecer envoltos em brumas de mistério”.

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine fazendo flexões de braço sobre um chapéu panamá, mas desta vez vestindo um sombreiro.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, despedindo-se de mim passando minhas meias a ferro e trocando o cadarço de meus sapatos de couro de crocodilo. Se a falta de calças provocou alguma reação, ele a escondeu com a prática que anos de polícia ofereciam.

Com o calor das meias ainda aquecendo meus pés, saio para a manhã nublada de Londres.

3 Respostas para “Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, Vai ao Zoo

  1. Encoberto numa Londres mítica, sem visibilidade, sem comentários, Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, trafega em espiral rumo às altas esferas, acima da névoa, e começa a atingir o status de obra-prima, para desespero do seu biógrafo, que queria apenas se divertir. É assim mesmo, garoto, as coisas escapam das mãos como um peixe pequeno.

    • Nei:
      Quando comecei a escrever as histórias do detetive taxidermista parecia apenas uma bobagem inconsequente.
      Mas agora percebo que é muito mais do que isso:
      É uma bobagem inconsequente sem o menor nexo.
      Abração
      Renzo

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