Nei Duclós disseca a mente e o passado de Frankie Brown, o Detetive Taxidermista

Nei Duclós, sempre atento, escreve alguns insights sobre a mente obsessiva e o gênio perturbado que tornaram Frankie Brown, o detetive taxidermista, uma das personagens mais complexas da literatura contemporânea.

“Frankie Brown demorou muito para entender como funciona. Ele gostava de Nat King Cole, mas não atinava que a origem era Billy Eckstine. Esse insight impediu a tempo que se entregasse a Johnny Mathis. Achava que o maior ator da atualidade era Phillip Seymmour Hoffmann, até que Robert Downey Jr. deixasse por alguns dias a cocaína e resolvesse filmar. Admirava Sir Guielgud, mas mudou de opinião quando viu Sir Alec Guiness em alguns filmes preto e branco dos anos 40. Achava David Lean original, até descobrir os irmãos Korda e ouvir Mad Dogs and Englishman com Noel Coward.

Brown radicalizou quando decidiu que Gregory Peck era melhor que Marlon Brando, pois lançava o queixo para todos os lados antes de Apocalipse Now e com muito mais eficiência. Tornou-se ainda mais soturno quando o filme The Nutty Professor revelou que Jerry Lewis se transformava em Dean Martin.

Foi por isso que se dedicou à taxidermia, para contrapor a aparência à verdadeira criatura. Isso o levou à investigação científica, o que chamou a atenção da Scotland Yard, que morreu de inveja e por isso colocou Lloyd na sua cola, para distraí-lo e fazer apenas uma pergunta, se alguém está morto ou não.

Brown precisa da atmosfera londrina, que é o subproduto taxidérmico dos porões, das catacumbas, dos castelos, dos corredores escuros, onde ocorrem os crimes. Prefere trafegar na névoa, mas sem perder a pista da origem de cada coisa: o punhal antes da fúria, o prazer antes do arrependimento, o sonho antes do pesadelo. Tudo é overdose quando a criação nos submete a seus caprichos.”

Embora digna de nota, a dissertação de Duclós merece alguns pequenos reparos.

Não é verdade, por exemplo, que a alma britânica de Brown privilegie “o punhal antes da fúria, o prazer antes do arrependimento, o sonho antes do pesadelo.” Pelo contrário, afirmam alguns estudiosos mais xiitas da personagem, é provável que Brown coloque “o punhal antes do arrependimento, o prazer antes do pesadelo e o sonho antes da fúria”. Solicitados a esclarecer a diferença, os estudiosos assumem uma postura desconfiada e, com um sorriso cínico, dizem “vocês sabem muito bem do que estamos falando”

E, apenas em nome do rigor histórico, embora pareça insignificante, vale sempre mencionar que a admiração de Brown por Sir Guielgud era limitada aos papéis em que ele gaguejava.

Colocados estes detalhes, parece-me que Duclós captou com raro brilho a persona de Brown e as razões pelas quais o personagem é, como colocou Umberto Eco, “uma cintilação em brasa na escuridão desértica e abismal do novo século”. Solicitado a esclarecer o que quis dizer, Eco assumiu uma postura desconfiada e, com um sorriso cínico, disse “vocês sabem muito bem do que estamos falando”

Em rara visita ao Brasil,  o cômite de estudos sobre Frankie Brown, o detetive taxidermista, pode ser visto na arquibancada, em uma das breves interrupções no ciclo de trabalhos, para acompanhar um jogo do Grêmio, com o grande jogador uruguaianense Gessy Lima no centro entre os agachados, por coincidência uma das admirações de Duclós.

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2 Respostas para “Nei Duclós disseca a mente e o passado de Frankie Brown, o Detetive Taxidermista

  1. Gessy Lima foi o único craque que abandonou uma carreira brilhante no futebol para se dedicar á odontologia. Isso o torna um personagem único entre os brasileiros, sempre agachados e ao centro de todas as decisões erradas. Ao contrário dos pontas de pé, Gessy Lima, quando selevantava, era o centro avante que pela primeira vez na História tacou quatro gols corridos nos argentinos no estádio de La Bombonera, depois de uma grande ressaca do porre que tomou junto com as provas de vestibular para dentista. No resto do tempo, para que suportassem sua grandeza, era preciso colocar-se ao nível do gramado.

    • O caráter único de Gessy é mais que suficiente para que os fãs de Frankie Brown o reverenciem.
      Abração

      Renzo

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