Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai à … bem, com o perdão da expressão, Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai à Merda (a pedidos)

Entro no sistema de esgotos que corre pelos subterrâneos de Londres. O ambiente é totalmente insalubre, reunindo tudo o que os cidadãos britânicos jogam pelo vaso sanitário – dejetos, biografias indiscretas da Lady Di, CDs com concertos ao vivo dos Menudos gravados em Ponta Porã, bonecos do Garfield com ventosas para grudar no espelho dos carros, mapas com a localização da Ilha de Caras, fotos de Hugo Chávez fazendo sopa de repolhos e  restos de drogas avaliados em milhões de libras (mesmo depois de a vigilância sanitária tê-lo expressamente proibido de fazer isso, infelizmente Keith Richards continuava se livrando do que comprava em excesso dessa forma).

No buraco que dá acesso ao sistema, bem no coração da Trafalgar Square, um guarda da rainha vigia o local 24 horas por dia, usando seu pitoresco chapéu de pele de urso. Infelizmente, como ele é orientado a nunca se mover, a depredação do sistema é constante.

Alguns marginais ainda se detêm por alguns minutos para a inevitável foto ao lado do soldado, mas esse pequeno gesto de vaidade é sucedido por invasões do local e sabotagens permanentes.

Desço a minúscula escada que dá acesso aos porões seculares, onde, reza a lenda, o próprio Rei Arthur promovia encontros secretos com Merlin.

As evidências disso estão no museu imperial londrino, que mostram em diversas ilustrações o nobre com um pregador de roupa fechando as narinas.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver uma gaivota alçar voo de uma pedra insular, mas não tem gaivota, não tem voo, não tem essa frescura de ilhinha, você está apodrecendo e parou de respirar.

O inspetor Lloyd já está lá embaixo, em meio à podridão que caracteriza os subterrâneos da capital britânica, inspecionando as inscrições que os escravos do império deixaram nas paredes enquanto escavavam as entranhas da pedra. Estas inscrições são a única prova de sua passagem pela terra, o único sinal que esses pobres homens podiam deixar para a posteridade, logo é estranha a predominância de receitas de chili com pequenas variações na dosagem de pimenta.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, fazendo uma imitação de Gene Kelly em Singin’ in the Rain, mas sua falta de habilidade faz com que o ato seja facilmente confundido com Fred Astaire em Easter Parade.

Lloyd. Péssimo detetive, péssimo imitador, mas ainda assim grande sapateador.

Apesar da boa intenção, a ideia de sapatear no esgoto mostra-se rapidamente uma péssima iniciativa, e os dejetos pisados voam por todos os lugares, obrigando os peritos a interromperem a coleta de digitais e abrigarem-se atrás de guarda-chuvas. Eu não conseguia imaginar a razão pela qual eles tinham levado guarda-chuvas para o esgoto, mas logo percebi que não só era uma ótima ideia como também eu deveria tê-los imitado.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine fazendo um gargarejo com Listerine sabor menta, enquanto tento limpar minha roupa.

“Venha comigo” responde Lloyd, interrompendo a dança e guardando-a no bolso traseiro de sua calça, junto com um extenso guia sobre a vida noturna de Poços de Caldas.

Mas, temia eu, haveria poucas sessões de tap dance daqui para frente no Esgoto londrino, construído na época em que não havia sistema de canalização da cidade, o que fez dele uma escavação inútil por quase duas décadas, até que Churchill fez do local um campo de críquete para contabilistas em início de carreira.

Lloyd me acompanha até o vão principal, onde as correntes se encontravam como um monumental tsunami de excrementos. Um jóquei circulava a área, proibindo os turistas de fotografarem o local e de fazer esculturas abstratas – a interdição da escola abstracionista era uma das bandeiras favoritas dos condutores de cavalos de corridas.

A esposa do jóquei ligava em seu celular para demovê-lo da iniciativa, mas a falta de sinal fazia suas mensagens caírem na caixa postal, onde ele instruía quem o procurava a mandar mensagens através de pombos correio.

Passo meus dedos sobre o agente sanitário inerte, recolho os sujos resíduos acumulados na estranha fantasia de gondoleiro veneziano que ele usava e revelo seu rosto, coberto pela maquiagem barata.

Aproximo meus dedos da veia do pescoço e, ao notar a inconfundível falta de ritmo coronariano, olho para meu relógio e anuncio, imitando Groucho Marx: “Lloyd, ou esse homem está morto ou meu relógio parou.”

Sem entender a piada, Lloyd, com sua irritante falta de senso de humor, confere o horário de meu relógio com o do Big Ben, avistado por uma pequena fresta aberta na calçada.

A operação dura cinco minutos, após os quais Lloyd se convence de que meu relógio está certo.

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine fazendo um gargarejo com Listerine sabor menta, mas sem conseguir fechar a tampa à prova de crianças. Não o condeno, já que eu próprio nunca conseguia abrir os frascos. Aliás, por uma estranha coincidência, eu jogava os frascos lacrados pelo vaso sanitário e tinha reencontrado vários deles em minha breve expedição.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, despedindo-se de mim oferecendo o bigode de Friedrich Nietzsche para minha coleção de pêlos faciais, além de uma desconfortável massagem relaxante nas pálpebras.

Subo a escadinha e saio para a manhã nublada de Londres.

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Uma resposta para “Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai à … bem, com o perdão da expressão, Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai à Merda (a pedidos)

  1. Frankie Brown demorou muito para entender como funciona. Ele gostava de Nat King Cole, mas não atinava que a origem era Billy Eckstine. Esse insigh impediu a tempo que se entregasse a Johnny Mathis. Achava que o maior ator da atualidade era Phillip Seymmour Hoffmann, até que Robert Downey Jr. deixasse por alguns dias a cocaína e resolvesse filmar. Admirava Sir Guielgud, mas mudou de opinião quando viu Sir Alec Guiness em alguns filme preto e branco dos anos 40. Achava David Lean original, até descobrir os irmãos Korda e ouvir Mad Dogs and Englishman com Noel Coward.

    Brown radicalizou quando decidiu que Gregory Peck era melhor que Marlon Brando, pois lançava o queixo para todos os lados antes de Apocalipse Now e com muito mais eficiência. Tornou-se ainda mais soturno quando o filme The Nuty Professor revelou que Jerry Lewis se transformava em Dean Martin.

    Foi por isso que se dedicou à taxidermia, para contrapor a aparência à verdadeira criatura. Isso o levou à investigação científica, o que chamou a atenção da Scotland Yard, que morreu de inveja e por isso colocou Lloyd na sua cola, para distrai-lo e fazer apenas uma pergunta, se alguém está morto ou não.

    Brown precisa da atmosfera londrina, que é o subproduto taxidérmico dos porões, das catacumbas, dos castelos, dos corredores escuros, onde ocorrem os crimes. Prefere trafegar na névoa, mas sem perder a pista da origem de cada coisa: o punhal antes da fúria, o prazer antes do arrependimento, o sonho antes do pesadelo. Tudo é overdose quando a criação nos submete a seus caprichos.

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