Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai ao Bordel

Entro no bordel de péssima reputação na zona mais pobre de Londres. A área é cercada de viciados, cafetões, contrabandistas e, estranhamente, gráficos em greve solicitando o fim da pesca de guaxinins.

Na porta, um leão de chácara mal encarado tenta me vender DVDs piratas do programa do Chacrinha e fotos de dromedários copulando.

Lá dentro, o ambiente é de puro sexo. O ar exala uma mistura de Aqua Velva, fumaça de charutos e do suor do Príncipe George III, preservado em formol como curiosidade científica.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver o Sol mergulhar no poente através de um lago azul, mas não tem Sol, não tem poente, não tem essa frescura de laguinho, você está apodrecendo e parou de respirar.

O inspetor Lloyd inspeciona o cardápio da casa, que oferece desde sopas até uma estranha variação do sushi erótico, no qual é servida uma moça vestindo uniforme de bilheteira do Teatro Municipal com sarapatel condimentado com mostarda.

A moça, avisa o cardápio, não vem com o prato, dada uma rara alergia a pratos latinos em geral.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, fazendo uma imitação de Carmem Miranda e usando como chapéu de frutas o que quer que esteja à mão – neste caso, um faqueiro de prata datado da década de 1970.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande travesti.

Ao som de “Disseram que eu voltei americanizada”, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam a imitar o Trio da Lua. A moça vestindo uniforme de bilheteira do Teatro Municipal começa a vomitar. Aparentemente, além da alergia às comidas latinas, sua náusea também aparece diante de ritmos do hemisfério Sul.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine imitando Dick Haymes cantando Smoke Get In Your Eyes.

“Venha comigo” responde Lloyd, interrompendo a marchinha de carnaval e devolvendo o faqueiro para o cofre de segurança instalado na parede, atrás de um quadro que mostra palhaços fugindo de um incêndio enquanto cavalos choram.

Mas, temia eu, haveria poucas sessões de marchinhas carnavalescas daqui para frente no Bordel, construído na época em que a polícia britânica estava tentando técnicas gandhianas de resistência pacífica ao crime, sentando em um café e contando anedotas de escritores do Século Dezoito o dia inteiro, até que os criminosos cansassem. A criminalidade explodiu, assim como a publicação de compilações do anedotário dos literatos da época.

Lloyd me acompanha até o salão principal, onde as moças desfilavam seus encantos para escolha do cliente. Um enrolador de charutos cubanos acompanhava o processo, vaiando, quando necessário, as escolhas do cliente. Notei que ele não era muito popular na casa, embora os proprietários justificassem sua presença como “controle de qualidade”, em uma tentativa de obter uma certificação ISO para a casa.

Passo meus dedos sobre a fronte da prostituta inerte, recolho a poeira acumulada pela maquiagem pesada e lambo meus dedos. Aproximo meus dedos da veia do pescoço e, ao notar o inconfundível ritmo coronariano, digo sem a menor hesitação: “Lloyd, ela está viva”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine imitando Dick Haymes cantando Smoke Get In Your Eyes, mas com um tom distanciado e irônico.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, “mas por que diabos ela não mostra nenhuma reação diante do ato sexual – desconforto, prazer, cócegas, nada???”

“Lloyd, sua besta: ela é inglesa”

Saio para a manhã nublada de Londres.

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