Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai ao Palácio De Buckingham

OK, reconheço, meu concurso para novos contos com Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, é um fracasso.

Nei Duclós, meu amigo, participou.

Todos os demais me ignoraram. Mas eis a amarga vingança: Uma nova história com o personagem adorado por milhões ao redor do mundo.

O Caso do Palácio De Buckingham (no original, Who Will Wear The Trousers?)

Entro na residência oficial da monarquia britânica, decorada com pôsteres autografados de filmes de Cantinflas – mas só aqueles nos quais ele usava bigode.

Na porta, os cães da Rainha latem nervosamente, como um anão aguardando o resultado de um teste de paternidade no programa do Ratinho, mas coincidentemente em um dia no qual o apresentador decide fazer o programa ao vivo cercado de gansos. Algo a ver com um pedido do PETA, nada muito claro, mas há uma tensão palpável entre o anão e Ratinho.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver uma seringueira desfolhar no outono, só que não existe seringueira, não estamos no outono, você está apodrecendo e parou de respirar.

Lá dentro, o inspetor Lloyd vê o cardápio da ceia servida ao Rei do Congo, trazendo sopa de repolho – uma gafe histórica, já que todos sabem que o repolho é considerado sagrado naquela inóspita região africana.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, lendo os poemas de T.S. Eliot como se fosse o rapper Snoop Dog, balançando um estranho colar de prata e me chamando de “nigga”.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande imitador de rappers.

Ao som de suas rimas ritmadas, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam a imitar balanços eletrônicos enquanto Lloyd grita, compassadamente: April is the cruelest month, breeding Lilacs out of the dead land, motherfucker

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine lendo um antigo almanaque de piadas de Costinha.

“Venha comigo” responde Lloyd, interrompendo o rap e guardando seu volume de The Waste Land em um bolso próximo da virilha esquerda, ao lado de onde ele guarda sua arma e também uma foto de Hugo Chávez comendo alho.

Mas, temia eu, haveria poucas sessões de rap daqui para frente no Palácio De Buckingham, construído na época em que a monarquia inglesa estava tentando formar um estúdio de tatuagens tribais para aumentar a arrecadação do império, abalada com a proibição do uso de cartões de crédito em transações envolvendo máscaras carnavalescas.

Lloyd me acompanha até o leito, onde Camilla Parker Bowles repousa em seu leito aparentando a paz de quem deu nome a uma ninhada de periquitos depois de um longo processo litigioso.

Passo meus dedos sobre a fronte de Camilla, recolho a poeira acumulada pela maquiagem pesada e lambo meus dedos. Aproximo meus dedos da veia do pescoço e, ao notar o inconfundível ritmo coronariano, digo sem a menor hesitação: “Lloyd, ela está viva”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine lendo um antigo almanaque de piadas de Costinha, mas a edição proibida para menores, onde ele fala de relações zoófilas entre ornitorrincos e holandeses grisalhos e, estranhamente, não circuncidados.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, que se despede de mim com uma rápida leitura de meus destinos nas cartas de tarô, prevendo viagens e uma mulher vesga e misteriosa.

Estou quase saindo quando me lembro de um detalhe que pode fazer toda a diferença. “Lloyd” acrescento eu “viva ela está, mas a mulher é feia pra caralho”.

Saio para a manhã nublada de Londres.

4 Respostas para “Frankie Brown, O Detetive Taxidermista, vai ao Palácio De Buckingham

  1. Submeti esta história para Ozzy T. (de Translator) More, epistemólogo marginal da Universidade Livre de Tijuana e americano de nascimento e vocação, que me disse o seguinte (T. acha que sabe todas as línguas, portanto releve a sintaxe):

    “Inclusive (sic) este letras no minha tese Recicle Cultural Garbish, com destaco: el Detective Taxidermista es um grande criaçón elemental de grande forza debochativa, que jorra de tudo o que povoa a mente doentia del autor autóctene. Las palabras nada tem a veer com nada, o que es um avanzo em pleno recrudezcimento del bolivarcheguevarismo y el lacerdismo redibibo. Estoy a imaginar un evento com el apoio de gruessas cotchas de beldades hispano para el caso del señor RM pueda nos brindar com una explanacion de su processo criativo. Aguardamos confirmacion de la verba del Departamento de Cosas Inutiles de Los Angels. Bamos a ver.

    Mientras Tanto, sugiro una visita del señor Frankie Brown al cadaver de James Bond. Está muerto? perguntará Lloyd. Muertíssimo, dira Brown, enquanto lleva dos tiros en las fuças disparados del natimorto Licenza para Matar. Será el fin del detective? Por supuesto que no. Garanta sus ingresos para le sesión de las cuatro. Saludos y plata. OTM

    • Nei:
      O Ozzy tem me perseguido cansativamente em busca de informações sobre meu processo criativo.
      Respondi a ele o que costumo responder a quem me pede serviços de faxina em geral: “É quinze real mais a condução”.
      Quando falamos em valores, Ozzy tangiversa, o que me leva a crer que a verba do Departamento de Cosas Inutiles de Los Angeles anda curta.
      A mente de um grande criador é algo inexplicável – as sinapses, o enredo, as soluções, as metáforas surgem de forma inesperada.
      Quando disse isso para o Ozzy, antecipando parte de minha palestra, ele começou a rir descontroladamente e chamar os amigos para me ouvir.
      Pode ser paranóia, mas a mim pareceu que eles estavam debochando de minha explicação.
      Não sei o que significa a expressão “cabrón maricón”, mas pelo tom não me pareceu elogioso.
      Enfim, se o Ozzy pintar com a grana, faço a palestra.
      Abração
      Renzo

    • Mãe:
      Já pedi para você parar de me elogiar usando pseudônimos.
      Se a Larissa de verdade descobre que vc anda usando o nome dela vai dar confusão.
      Traz a macarronada no domingo.
      Renzo

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