Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, vai ao Cairo

Enquanto meu concurso para novos contos com Frankie Brown, O Detetive Taxidermista não decola, sou compelido a criar novas histórias com o personagem adorado por milhões ao redor do mundo.

O Caso da Múmia de Tuntacamon.

Entro na pirâmide com cheiro de mofo, como tudo no Cairo, decorada com hieróglifos que ensinam a fazer origamis durante o ato sexual – o que me parece inútil, já que os egípcios só escreviam em papiros e não tinham inventado o papel.

Na porta, o camelo que conduz os exploradores parece inquieto e melancólico, como alguém que acabou de ler o Paulo Coelho e tomou biotônico Fontoura.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver um navio partir do porto, só que não existe navio, não existe porto, você está apodrecendo e parou de respirar.

Lá dentro, o inspetor Lloyd vê as paredes da pirâmide, onde escravos entalharam uma estranha história em quadrinhos, na qual um elefante experimenta sapatos para um jantar executivo com empresários do ramo da pesca. O elefante usa gravata borboleta, meias rendadas e parece desconfortável..

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, tirando seu charuto da casaca, recebendo um santo do candomblé e me abençoando, chamando-me de “zifio”.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande macumbeiro.

Ao som de suas bênçãos, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam a cantar músicas esquecidas de Ruy Mauriti, com ênfase em seus pontos de umbanda gravados na década de 70.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine lendo a lista de compras de uma lavanderia a seco.

“Venha comigo” responde Lloyd, recobrando-se da possessão e guardando o charuto, ainda aceso, em seu paletó de tweed. O paletó começa a se incendiar, mas a fleuma britânica o impede de mostrar qualquer reação.

Mas, temia eu, haveria poucas sessões de descarrego daqui para frente na pirâmide de Tuntacamon, construída na época em que o líder de todos os egípcios havia consagrado a rumba como ritmo oficial da nação.

Lloyd me acompanha até a tumba, onde Tuntacamon repousa em seu esquife aparentando a paz de quem se divorciou da Ana Maria Braga depois de um longo processo litigioso.

Passo meus dedos sobre a fronte da múmia, recolho a poeira acumulada dos séculos e lambo meus dedos. Olho para ele e digo, sem a menor hesitação: “Lloyd, não só ele está morto como também está morto há um tempão”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine lendo a lista de compras de uma lavanderia a seco, mas na qual não fossem usados alvejantes.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, que se despede de mim com uma mordida em meu lóbulo esquerdo e escondendo um catecismo de Carlos Zéfiro no bolso de minha capa.

Saio da pirâmide para o camelo, que me levará até o aeroporto e, de lá, para a manhã nublada de Londres.

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3 Respostas para “Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, vai ao Cairo

  1. “Frankie Brown, o Detetive Taxidermista, vai ao Cairo: O Caso da Múmia de Tuntacamon”: nasce um clássico.

    Duas frases para a calçada da fama (na minha calçada da fama tem frases, não cimento borrado por mãos):

    “Na porta, o camelo que conduz os exploradores parece inquieto e melancólico, como alguém que acabou de ler o Paulo Coelho e tomou biotônico Fontoura.”

    “Lloyd me acompanha até a tumba, onde Tuntacamon repousa em seu esquife aparentando a paz de quem se divorciou da Ana Maria Braga depois de um longo processo litigioso.”

    Isso é civilização. Chama-se vingança.

    • Nei:
      Bom que você goste, já que agora vc é co-responsável pelos destinos do intrépido detetive amador.
      Estou em adiantadas negociações com Hollywood para filmagem das aventuras. Até agora, os produtores só mandaram faxes com risos, mas já é uma reação.
      Abração

      Renzo

      • Se mandaram faxes com risos, é sinal que eles vêem Frankie Brown como comédia. Isso é um bom sinal, pode dar grana. O primeiro filme pode ser desse gênero, desde que não coloquem o Jim Carrey como Brown e o Steve Martin como Lloyd. Para funcionar, talvez David Caruso vestindo um avental de pele de golfinhos no papel do taxidermista e, para ganhar o Oscar, Stephen Walken encarnando Lloyd.

        Depois, as histórias do detetive poderão virar uma série em preto e branco, para passar em cinemas demolidos do subúrbio de Ciudad Juarez, às quatro da tarde, sem ar condicionado. Cult é isso. O resto é periferia.

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