Frankie Brown, O Detetive Taxidermista

1 – O Caso de Lady Collins.

Entro no castelo decorado com pinturas renascentistas, datadas de 1970. Na porta, o Rolls Royce que servia à Lady Collins está imóvel, o que é bom, já que não há ninguém dentro dele.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ouvir uma sinfonia de Brahms no foyer do Royal Albert Hall, mas não tem maestro, não tem orquestra, não tem essa frescura de teatro com acústica perfeita, você está apodrecendo e parou de respirar.

Lá dentro, o inspetor Lloyd vê a biblioteca empoeirada da família Collins, onde destacam-se as obras autografadas de Adelaide Carraro.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, tirando sua gaita de fole do casaco e tocando “El dia em que me queiras”.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande músico.

Ao som de seu instrumento, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam a dançar cheek to cheek.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine lendo a lista telefônica de Boston.

“Venha comigo” responde Lloyd, guardando a gaita com relutância. Os peritos param de dançar mas permanecem abraçados no salão, como se a música fosse ser reiniciada a qualquer momento.

Mas, temia eu, haveria pouca música daqui para frente na mansão de Lady Collins, herdeira de barões que fizeram fortuna construindo bonecos de ventríloquos.

Lloyd me acompanha até a cozinha, onde a cabeça de Lady Collins repousa sobre a mesa, enquanto pedaços de seu corpo esquartejado se distribuem pela sala de música.

Olho para ela e digo, sem a menor hesitação: “Lloyd, ela está morta”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine lendo a lista telefônica de Boston, mas depois de horas de ensaio.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, que se despede de mim com um caloroso abraço e uma indiscreta apalpadela em meu umbigo.

Saio do Castelo para a manhã nublada de Londres.

2 – O Caso de Lord Rubbles.

Entro no pub enfumaçado, decorado com fotos de ditadores africanos dos anos 70. Idi Amin Dada parece feliz vestindo calças de pijama listradas, mas não consigo parar de pensar que Jean-Bedel Bokassa deveria sorrir mais, especialmente quando fantasiado de fenomenologista da linha heideggerana.

Na porta, o Bentley que servia a Lord Rubbles está imóvel, o que é bom, já que não há ninguém dentro dele.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ser membro do júri que ouve as testemunhas do estupro de um albino, mas não tem juiz, não tem toga, não tem essa frescura de direito irrestrito de defesa, você está apodrecendo e parou de respirar.

Lá dentro, o inspetor Lloyd vê o bar empoeirado do Pub, onde destacam-se catuabas da safra de 1950.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, tirando suas polainas e fazendo uma pequena dança havaiana.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande dançarino.

Diante da visão espetacular de sua dança, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam a tirar fotos da grande performance.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine lendo o índice remissivo da Enciclopédia Britânica.

“Venha comigo” responde Lloyd, calçando as polainas com determinação. Os peritos olham as fotos digitais e discutem quais foram capazes de captar os melhores ângulos.

Mas, temia eu, haveria pouca dança daqui para frente no PUB Nordstren, datado de um tempo em que a sodomia só era aceita para fins procriativos.

Lloyd me acompanha até a cozinha, onde a cabeça de Lord Rubbles repousa sobre a mesa, enquanto pedaços de seu corpo esquartejado se distribuem pelas tábuas de frios, o grande atrativo do bar – logo depois das sessões de strip tease de seu proprietário, Jonathan Files, um veterano da Primeira Guerra Mundial.

Olho para ele e digo, sem a menor hesitação: “Lloyd, ele está morto”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine lendo o índice remissivo da Enciclopédia Britânica, mas imitando um grego.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, que se despede de mim com um beijo nos lábios e afanando meu cartão de escoteiro.

Saio do Pub para a manhã nublada de Londres.

3 – O Caso do Mineiro Mascarado.

Entro na mina de carvão poluída, decorada com pôsteres de exposições do Museu Nacional do Paraguai realizadas em 1970, antes da ascensão dos abstracionistas.

Na porta, o ônibus que conduz os mineiros até seu local de trabalho está andando lentamente, já que se esqueceram de puxar o freio de mão, o que não é bom, já que há não ninguém dentro dele.

Embora seja taxidermista profissional, a Scotland Yard sempre pede meu apoio em casos de grande repercussão. Trabalhar como taxidermista me deu uma nova perspectiva da morte. Morrer é como ver o show dos golfinhos amestrados na primeira fila, mas não tem respingos de água, não tem peixe que pula (até porque os golfinhos não são peixes, são mamíferos, mas eles também não estão lá), não tem essa frescura de amestrador com sardinha na mão, você está apodrecendo e parou de respirar.

Lá dentro, o inspetor Lloyd vê as paredes da mina, onde mineiros homossexuais encravam seus telefones e preferências sexuais pervertidas. Fico ao lado dele por um momento e copio o telefone de Anthony Burrows, especialista em candelabro italiano transverso.

Lloyd saúda minha chegada como de hábito, tirando suas maracas do casaco e tocando música regional húngara.

Lloyd. Péssimo detetive, mas grande ritmista.

Ao som de seu instrumento, alguns peritos interrompem a coleta de digitais e começam uma tourada.

“Chega, Lloyd”, ordeno com a voz firme, mas mantendo um tom delicado, quase acariciante, como Billy Eckstine lendo o diário de uma adolescente obcecada com tribos australianas.

“Venha comigo” responde Lloyd, guardando as maracás na pasta de couro. Os peritos olham a cena com tristeza, guardando o pano vermelho e o touro que os acompanhava.

Mas, temia eu, haveria poucas touradas daqui para frente na mina Nordstren, descoberta na época em que a Rainha Vitória havia proibido o uso do cotovelo em atos sexuais.

Lloyd me acompanha até a cozinha, onde a cabeça do mineiro mascarado repousa sobre a mesa, enquanto pedaços de seu corpo esquartejado se distribuem pelas panelas em que os mineiros preparavam pratos da cozinha sino-caribenha.

Tiro a máscara e os olhos mortos do mineiro misterioso me encaram sem brilho, com um mormaço vítreo cobrindo suas pupilas. Olho para ele e digo, sem a menor hesitação: “Lloyd, não só ele está morto como também não sei quem é ele”

“Tem certeza, Frankie?”.

“Sim” digo com clareza, como Billy Eckstine lendo o diário de uma adolescente obcecada com tribos australianas, mas pouco antes de sua primeira menstruação.

“Era o queríamos saber” diz Lloyd, que se despede de mim com um aceno e limpando as mãos sujas de carvão e de sangue em minhas nádegas.

Saio da mina para a manhã nublada de Londres.

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2 Respostas para “Frankie Brown, O Detetive Taxidermista

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