Repostagem de contos natalinos do ano passado (além de dois inéditos, bem fraquinhos…)

Claus (à moda de Stephen King)

Anoiteceu.

O sino gemeu.

Não tanto quanto eu, é claro, quando coloquei a pá no chão e me apoiei nela, depois de cavar por duas horas.

Um mau escritor diria que as órbitas vazias me olhavam.

Mas órbitas vazias não olham e nem o pior dos escritores estaria aqui como eu, às três da manhã, desenterrando um corpo em um cemitério municipal.

Ela devia ter sido uma mulher bonita, a julgar pela foto preto e branco na lápide.

Entre a estrela e a cruz, contavam-se 27 anos.

Mas os quatro meses decorridos desde seu falecimento tinham feito um belo estrago.

Prendo a respiração, o que é inútil face ao terrível cheiro de carne em putrefação.

Abraço o cadáver para tirá-lo do caixão. Vermes caem em minha vasta barba branca.

Dobro o corpo o melhor que consigo e o coloco em meu saco.

Aquele cheiro, imagino, deve inutilizar meu saco para sempre, sem falar de meu uniforme vermelho.

Olho para os lados, checando se alguém me observa, e então corro o máximo que consigo até meu transporte. Estou cansado. Velho demais para esse trabalho.

As renas reclamam do meu peso e do cheiro quando finalmente sento-me no trenó. Chicoteio-as e alço vôo.

Meu destino é a casa do Pedrinho, o pequeno órfão de 7 anos que se comportou bem o ano inteiro e que pediu ao Papai Noel que sua mãe passasse o Natal com ele.

Entro pela chaminé e ajeito o corpo o melhor que posso na poltrona da sala.

Moscas varejeiras começam a cercá-lo, com um zunido irritante.

Tento endireitar o corpo, mas, sem firmeza, ela cai para os lados.

O tempo é crucial.

Não dá para fazer melhor.

Olho o corpo da mãe do Pedrinho na poltrona e congratulo-me por mais um serviço bem feito.

Saio.

Quando as renas começam a voar, ouço um grito histérico e infantil vindo da casa.

Porra, essa criançada de hoje reclama de tudo…

Claus (à Moda de Raymond Chandler)

Anoiteceu.

O sino gemeu.

Gemeu como uma piranha de vinte dólares, tentando excitar um cliente bêbado.

A gente ficou, feliz a cantar.

Sim, como em todo bar do mundo no dia 24 de Dezembro.

Papai Noel, vê se você tem…

E dá-lhe presentinhos, pedidos, o caralho a quatro.

Olho o relógio e falta uma hora para eu entrar em ação. Peço mais um uísque batizado e acaricio meu colt .45 por cima da ridícula e puída roupa vermelha.

Estou engordando. Ficando velho demais para essa merda.

Os botões da parte superior do uniforme não fecham, expondo minha ceroula que já foi branca.

Todo ano eu digo que é a última vez. Ano que vem eu paro. Mas aqui estou eu de volta.

Viro o uísque barato, que cai rasgando minha garganta, deixo dois dólares na mesa e saio para a rua.

A vizinhança é barra pesada. Gangues. Garotos drogados. Prostitutas adolescentes.Vendedores de seguros.

Ainda assim, ninguém me incomoda.

Eles me conhecem desde a infância deles. Sabem que é melhor não ficar no meu caminho.

Especialmente hoje.

Pena.

“Provoquem” digo eu entre os dentes. Mas nada me detém e eu tenho que seguir com o plano.

Revejo o mapa.

58 casas na vizinhança. Zezinho brigou com a irmã. Risco seu nome. Uma casa a menos.

Joãozinho, do sobrado bege com a tinta descascando, viu TV depois das 10. Ainda por cima, sodomizou dois coleguinhas do grupo Escolar com os índios do Forte Apache que ganhou DE MIM no ano passado.

Joãozinho é alto e forte para seus 9 anos de idade. Não vai ficar feliz quando vir que seu trenzinho elétrico não vai aparecer debaixo da árvore. Não é impossível que a coisa fique feia. E se ficar, sou eu ou ele. São 365 dias por ano. Os outros 364, estes são do jeito deles. Mas esta é a minha noite.

Serginho, da casa de três cômodos, ajudou uma ceguinha a atravessar a rua no mês passado.

Filho da Puta. Vou ter que perder meu tempo entregando o maldito carrinho elétrico. Que, é claro, com a movimentação, ficará no fundo do saco, me fazendo perder valiosos minutos em uma operação onde tudo é rigorosamente cronometrado. Odeio os bonzinhos. Eles me dão nojo.

Minha barba fede à Acqua Velva e cebola. Olho o relógio e faltam 45 minutos.

Pode ser que eu tenha sorte.

Alguém que se coloque no meu caminho e me dê a desculpa que eu preciso para não trabalhar.

Um bêbado valentão. Um assaltante. Alguém que não acredite em mim.

Checo o tambor do .45 e estou pronto para eles.

Sento no meu transporte. As renas reclamam do meu peso. Fodam-se. Não vou ser o único a me estourar esta noite.

Ninguém fica no meu caminho e já é quase meia noite. Chicoteio as renas e alço vôo.

A casa de Joãozinho, o sodomita mirim, surge no horizonte.

Chegou a hora do confronto.

Respiro fundo, apalpo minha arma e entro pela chaminé.

Claus (à moda de Franz Kafka)

Anoiteceu.

O sino gemeu.

Com o som do sino, Santa Claus acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Não se importou. Tinha um trabalho para fazer. Colocou o saco de presentes nas costas em formato de asas e rumou para a primeira casa. Conferiu a lista. Joãozinho tinha sido um bom menino e pedia um Nintendo Wii.

Entrou com alguma dificuldade pela chaminé e rumava para a árvore decorada com luzes quando foi interrompido por um grito feminino. Identificou a voz da mãe de Joãozinho.

“Uma barata nos presentes. Mata.”

Em seguida, o pai de Joãozinho toma seu chinelo havaianas calibre 44 e ruma em sua direção. Ergue e …

Claus (à moda de Jorge Amado)

Anoiteceu.

O sino gemeu preguiçosamente. Na verdade, meu rei, era quase um bocejo, já que mesmo à meia noite fazia um calor da porra. Entrei pela janela, já que não tem chaminé aqui em Ilhéus.

Um mininu de seus quatro anos me espera perto da árvore. Sei que tem um presente com o nome dele no saco, mas me deu uma leseira da porra e peguei o primeiro que apareceu.

“Painho Noel, num é isso não que eu pedi.

Isso é uma botinha da Carla Perez e eu pedi o carrinho da Batman” diz ele.

“Ah, meu reizinho, então vai tomar no cuzinho” respondo eu antes de sair para a noite asfixiante.

Porra, essa criançada de hoje reclama de tudo…

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