Eu e O Fantasma de Wilson Simonal

Foi, sei lá, final dos anos 70 ou início dos 80. Reveillon. Estava de penetra na festa de Ano Novo de gente que eu não conhecia, em Guarujá, acompanhando uns músicos da noite que eram meus amigos e iam tocar lá.

Chegando lá, juntou-se a eles o fantasma de Wilson Simonal, uma sombra daquele que tinha sido um dos maiores ídolos do Brasil.

Dos estádios lotados, tinham sobrado festas privadas em casas de milionários.

Naquela época, já fiel à minha determinação de ser uma besta, não cumprimentei o homem, que na minha cabeça era sinônimo de ditadura.

Era minha contribuição para derrotar os militares: esnobar Wilson Simonal.

Ele, obviamente, não deve ter ligado muito e o regime sobreviveu ao meu ataque.

Hoje recebo o DVD do grande documentário “Ninguém sabe o duro que  dei”. Se o filme trouxesse apenas o encontro de Simonal com Sarah Vaughan, já valeria o preço, mas ele traz muito mais: Uma história extremamente triste de um homem que quis levar a sério a noção de picaretagem que inspirava suas músicas.

O filme não traz julgamentos. Quem crucificou Simonal tinha suas razões em encontrar um bode expiatório para malhar o regime e Simonal foi uma vítima de sua ingenuidade fantasiada de malandragem.

Mas, independente de seus erros, o filme mostra um grande cantor, um artista intuitivo, um homem bonito cheio de swing que teve o país aos seus pés e cometeu um erro que nunca foi anistiado.

Um desperdício que o filme tenta corrigir – antes tarde do que nunca.

Nota: A direção de arte é deslumbrante, remetendo à iconografia dos anos 70.

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