Orson Welles Não Te Engana

O Vigarista do Ano (The Hoax, 2007), com direção de Lasse Hallström e estrelando Richard Gere e Alfred Molina, é uma delícia, contando a história real de Clifford Irving, o escritor que fez uma biografia falsa de Howard Hughes, o milionário maluco que foi personagem central do filme de Martin Scorsese, O Aviador.

O problema é que o filme, como diz o autor em seu site, é falso – uma falsificação da história de sua falsificação.

Clifford Irving, o Real. Sim, eu sei, o Richard Gere é mais bonito. Em compensação, as mulheres que foram suas amantes na vida real eram muito mais bonitas do que aparecem no filme.

Atrás da história real, comprei o livro de Irving e, mais do que isso, um grande filme.

F For Fake, de Orson Welles (com trilha de nada menos do que Michel Legrand) mostra Irving (o real) e seu envolvimento com a biografia de outro falsário: a do pintor Elmyr de Hory, que Irving escreveu.

O filme pega Irving bem no meio da confusão com a falsa biografia de Hughes, que o colocou em cana, e é um trabalho fascinante sobre a farsa com arte.

Os cinéfilos vão me matar, mas este último trabalho de Welles é muito melhor que seu primeiro, um filme chamado “Cidadão Kane” (acho que talvez você já tenha ouvido falar…).

Ah, sim, um cineasta chamado François Truffaut disse que este era um dos 10 melhores filmes dos anos 1970.

Uma história contada na voz de “Deus” de Orson (que, assim como o Peréio, tem a voz que você espera ouvir nas catedrais onde o nome do Senhor é invocado): Um amigo levou um quadro de Picasso para o próprio Picasso. O pintor olhou e desdenhou: “É falso”. O amigo respondeu: “Mas, Pablo, eu o vi pintar esse quadro com meus próprios olhos”. Picasso responde: “Isso quer dizer que eu posso pintar um Picasso falso tão bem quanto qualquer outro”

Veja imediatamente (e, se tiver tempo, assista ao Vigarista do Ano. Nem que seja para ser enganado com classe).

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6 Respostas para “Orson Welles Não Te Engana

  1. “Os cinéfilos vão me matar, mas este último trabalho de Welles é muito melhor que seu primeiro”

    Não vão não, é cada vez mais comum a idéia de não achar Kane o maior do Welles (talvez até por resistência às inúmeras aparições do filme na 1ª posição de listas por aí). Além de F For Fake, eu coloco A Marca da Maldade à frente, mas de qualquer forma, Fake tá em outro nível de grandeza mesmo. Não vou dizer que é o maior da década porque a concorrência é inacreditável, mas tá entre os 4 ou 5 facilmente.

    • Grande Luis:
      Taí: A Marca da Maldade também é grande. A Dama de Shangai é bom, mas em um patamar abaixo.
      Mas o F For Fake é genial.
      Porra, eu sou mesmo uma besta: Fiquei 48 anos sem ver essa obra prima.
      Abração
      Renzo

  2. Outra do Picasso que eu gosto é aquela em que ele, para se livrar de um chato que o infernizou por semanas pedindo um quadro, pintou na frente do dito e cobrou um milhão de dólares.
    – Um milhão de dólares por cinco minutos? reclamou o chato.
    – Negativo. Setenta anos e cinco minutos, respondeu o gênio.

    • Nei:
      Tem aquela estória, seguramente falsa, de que ao receber a conta de um restaurante, ao invés de pagar, Picasso mandou um desenho assinado.
      O dono da casa fez um desenhinho muito mal feito e mandou para o pintor.
      Picasso olhou para aquilo e perguntou: “O que é isso?”
      “O Troco”, devolveu o dono do restaurante.
      Abração
      Renzo

  3. Muito boa. É bom lembrar também que Chaplin entrou, anonimamente, num concurso de imitadores de Chaplin e tirou o terceiro lugar. Carlos Castaneda conta que soube do lançamento do próprio livro e lá conheceu um senhor muito simpático e distinto que distribuía autógrafos. Pediu um para o falso Carlos e fez alguns comentários sobre o livro, no que foi agraciado, como resposta, com uma série de conselhos mágicos.

    O pior é passar dos sessenta anos e não ser mais reconhecido por ninguém. É quando viramos a versão fake de nós mesmos.

    • Mais uma:
      Um amigo do Jobim (ou do Antônio Maria) se fazia passar pelo compositor para , vá lá, fazer amor com as mocinhas.
      Daí o falso encontra com o original e revela: “Ontem “você” saiu com a Fulana. E brochou.”
      Abração
      Renzo

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