Assassinos Publicados

Encontro em oferta (e compro só por isso o que não compraria em nenhuma outra circunstância) o livro de Doca Street, Mea Culpa.
Acho pornográfico – e não no bom sentido – um assassino faturar com seu crime, principalmente quando a vítima é uma mulher linda – como a socialite Ângela Diniz.

Mas o que me levou a comprar o livro foi muito menos o crime (que ele aborda com notável franqueza, sem se proteger ou arrumar desculpas esfarrapadas, abrindo o jogo com relação ao uso de drogas) e muito mais a crônica da boêmia dos anos dos anos 70, onde um homem casado com uma Scarpa começa a sair com a amante do mais importante colunista social do país – Ibrahim Sued.

Só nas primeiras páginas do livro, Doca cheira metade da Bolívia e bebe um quarto da Escócia.
Aos 72 anos, Raul Fernando do Amaral Street não tem mais nada a perder.

Não quer nossa compreensão, não quer o perdão da família, não quer o apoio da sociedade – e acho que nem o nosso dinheiro, que ele leva quando compramos o seu livro.

Quer dividir conosco a sua história, que escreveu para não enlouquecer (segundo suas próprias palavras) e, talvez, para recordar aquela que suponho tenha sido o grande amor da sua vida – e que ele não conseguiu domesticar.

A descida ao inferno de um homem que sai do Country Club e do Copacabana Palace para o Presídio de Água Branca tem o seu interesse.

Uma história que pode ser de covardia, de machismo estúpido, mas que é a dele, vista do ponto de vista “privilegiado” (em termos narrativos)  do assassino – e ele conta com a mesma coragem que deveria ter tido naquele 1976, quando poderia ter partido e deixado a amante viva.

A gente sempre mata o que ama – escreveu Oscar Wilde – (mais precisamente:
Yet each man kills the thing he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!)

Talvez Doca tenha levado a sério demais a estrofe final (O covarde fá-lo com um beijo, Enquanto o bravo o faz com a espada!…)

É mais ou menos como outra obra pornográfica, o livro de O. J. Simpson, onde ele, com menos coragem do que Doca, hipoteticamente descreve como teria matado a esposa – SE ele o tivesse feito.

Absolutamente degradante, embora a família de uma de suas vitímas seja beneficiada com o dinheiro da venda do livro.

Um pé na bunda é doloroso – e praticamente todos nós já levamos um.

Mas nós sobrevivemos – tanto quanto as mulheres que nos chutaram.

Exatamente como teria acontecido com Doca e OJ se eles, como nós, fossem um pouco mais corajosos.

2 Respostas para “Assassinos Publicados

  1. Caro Renzo,
    Covarde e incompetente. Não pelo chifre, mas pelo que ele transformou a sua dor de corno. Se tivesse competência iria compor uma música (não digo dos discos conceituais do Sinatra, mas podia se contentar com o lixo: sertaneja, pagode, etc) ou então tomar uma cachaça (uísque que era aparentemente sua especialidade, adoçado com coca) com alguns outros amigos pontudos.
    Abraço

  2. Concordo plenamente. O pior é o apoio público que ele recebeu na época. Pelo menos nesse ponto, acho que melhoramos um pouco.
    Abração
    Renzo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s