Um capítulo completo do livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”

Este capítulo  (resumido e adaptado para a net) fala sobre John Holmes – e talvez seja a matéria mais ampla sobre a história do homem já publicada no Brasil.
A ilustração é de Almir Roberto, também responsável pela capa.
Espero que vocês gostem –
e, principalmente, comprem o livro.

É só clicar aqui.

cool2

Um episódio lembrado pelo escritor Will Friedwald: Um estudante trouxe até o poeta americano Robert Frost um caderno com seus versos, uma carta de apresentação e apresentou-se como poeta. Frost respondeu: “Poeta é uma palavra dada, filho. Você não pode se auto-proclamar poeta”.

Com o cool é a mesma coisa: Você pode ser percebido como cool, nunca conscientemente tentar parecer ou se declarar cool.

Na indústria do entretenimento, ser visto como cool tem mais valor do que um Oscar ou um Grammy – é só ver o número de premiados que desaparecem logo depois de levar um destes prêmios para casa.

Os marketeiros ainda não inventaram um método eficaz para forjar o cool – e forçar a barra só consegue produzir resultados desastrosos.

O grande problema está na definição do que é ser cool e na complexidade das características que se cruzam e interligam para produzir a percepção de coolness.

Cool, como gíria, vem sobrevivendo há mais de 70 anos.

Ela começou a ser usada pelos negros norte-americanos no início da década de 30 e ganhou popularidade na Segunda Guerra Mundial, com o auxílio luxuoso dos músicos de jazz.

Ao longo do tempo, expressões como bully, capital, hot, groovy, hep, crazy, nervous, far-out, rad e tubular tentaram substituí-la e morreram tão rapidamente quanto apareceram, enquanto o cool atravessa o século com invejável saúde e disposição.

Mas o que significa o cool hoje em dia?

O ator pornô John Holmes, por exemplo, era tão absurdamente cool que o crítico de cinema Sam McAbee chegou a qualificá-lo como uma mistura de Shaft com Bruce Lee.


Se as estatísticas estiverem corretas, o pênis do leitor (ou do companheiro mais freqüente da leitora) deve medir cerca de 15 cm quando ereto.

Tudo bem. Pode ir medir. Eu não estou com pressa.

John Holmes, o – em mais de um sentido – maior ator pornô de todos os tempos tinha um membro que, quando animado, alcançava 33 centímetros.

Para aumentar a humilhação do leitor comum, o mesmo funcionava eficiente e regularmente, como puderam comprovar as cerca de 3 mil pessoas – de todos os sexos – que tiveram contato com o dito cujo.

Biologia é destino, cansava de lembrar o grande Paulo Francis.

Não fosse por esse detalhe anatômico, talvez Holmes, que completaria 60 anos em 2004, estivesse aposentado da carreira de motorista de ambulâncias, ainda ao lado da enfermeirinha virgem com quem casou aos 21 anos – e se não fosse sua carreira cinematográfica as vizinhas nunca teriam adivinhado a razão do sorriso de superioridade que, imagino, estampasse diariamente o rosto da Sra. Holmes.

Mas o destino o pôs no lugar certo, na hora certa e com o tamanho certo.

Após uma série de batalhas legais, no início dos anos 70 o pornô tinha finalmente chegado aos cinemas públicos – em 1972 “Garganta Profunda” arrecadou milhões e provocou um impacto cultural tão forte que acabou batizando o informante anônimo do caso Watergate.

Assistir “Deep Throat” tornou-se uma espécie de obrigação social, cunhando o termo “pornô chic”.


O ensaísta Christopher Hitchens coloca o filme entre as principais razões que tornaram a felação “tão americana quanto torta de maçã”, complementando “Dick Cavett declarou que nós fomos de olhar para uma marquise onde está escrito Garganta Profunda e torcer para aquilo não querer dizer o que nós achamos que diz para “garotos que nem sequer consideram (a felação) como sexo de verdade”

Entre os espectadores que formaram filas na porta dos cinemas, estavam nomes como o do escritor Truman Capote, o apresentador de talk shows Johnny Carson e o diretor Mike Nichols.

O vice-presidente norte-americano Spiro Agnew assistiu à uma exibição privada na casa de Frank Sinatra em Palm Springs.

Sammy Davis Jr. fechou o cinema Pussycat em uma sessão fechada para amigos como Shirley MacLaine, Lucille Ball, Steve Lawrence e Edie Gourme. O Trio Los Panchos Não Foi Convidado.

Ou seja – Holmes surge no cenário exatamente quando o pornô começa a virar cool.

Com a explosão do gênero, houve uma corrida para produzir novos filmes e Holmes rapidamente foi descoberto.

Sobre o momento de sua revelação, o autor Mike Sager conta em seu
livro Scary Monsters and Super Freaks: “… Holmes estava perdido de emprego…

…em emprego, tentando encontrar seu espaço. Ele tinha deixado a direção
de ambulâncias… e tinha vendido sapatos, móveis… havia trabalhado em
um frigorífico até que seus pulmões entrassem em colapso por causa do
freezer. Havia pouco, ele tinha começado a treinar para se tornar segurança
uniformizado.
Sem que Sharon soubesse, Holmes tinha começado no mundo pornô,
depois do encontro com um fotógrafo profissional chamado Joel (Sussman)
no banheiro de uma casa de pôquer em Gardina… Ao chegar mais cedo do
trabalho, Sharon deixou sua bolsa no vestíbulo de seu apartamento de um
dormitório em Glendale. A porta estava aberta. Dentro dele, estava seu marido,
John. Ele tinha uma fita métrica em uma mão e o pênis em outra.
“O que você está fazendo?”, ela perguntou.
“O que parece que eu estou fazendo?”
“Tem alguma coisa errada? Você está com medo de que ele esteja
encolhendo e morrendo?”, ela perguntou, rindo.
“Não, só estou curioso”, disse Holmes.
Sharon foi para o quarto, deitou-se e começou a ler uma revista. Vinte
minutos depois ele entrou no quarto, com o membro completamente ereto.
“É incrível”, disse John.
“O quê?”
“Ele vai de cinco polegadas para dez. Dez polegadas de comprimento.
Quatro polegadas de diâmetro.”
“Isso é ótimo”, disse Sharon, virando a página da revista. “Você quer
que eu chame a imprensa?…”
Santo de casa não faz milagres mesmo – ou talvez Sharon, que casara
virgem, achasse que aquilo que tinha em casa era trivial. Acho que foi Mia
Farrow que disse que na infância imaginava que ser pobre era não ter piscina
em casa. Sharon talvez vivesse na mesma concha de seu mundinho privilegiado.
Com US$ 750,00 e apenas uma diária de filmagem, o diretor e roteirista
Bob Chinn produziu um filme estrelando o novo astro no papel do detetive
noir Johnny Wadd, uma mistura de

Philip Marlowe…

…Sam Spade…

…e o obelisco do Ibirapuera

, cujo estrondoso sucesso gerou uma série e fez de Holmes,
com seus terninhos apertados de três peças e indefectíveis óculos escuros
Ray Ban, um ícone dos anos 1970 e a quintessência do cool para toda uma geração (além de criar um franquia que, pela relação custo/benefício, foi muito mais lucrativa que a do agente 007).

O produtor pornô Bob Vosse afirmou que Holmes era um cavalheiro no set – “Bem, a sua moda”. Dava presentes para as parceiras de cena, os quais ele mesmo se encarregava de roubar das lojas. As atrizes se apaixonavam por ele, embora ele as esquecesse logo depois do banho que tomava para sair do estúdio.

Uma de suas parceiras, a atriz Bunny Bleu, conta no livro The Other
Hollywood, de Legs McNeil: “John e eu saímos em uma turnê promocional…

Bunny Bleu

Bunny Bleu

…pelo Texas dando autógrafos em lojas de artigos sexuais – e foi realmente
selvagem. As mulheres davam a volta no quarteirão. Elas urinavam nas calças de tão excitadas que ficavam de encontrá-lo. Uma mulher, de fato, foi para casa, se trocou, se limpou, voltou e pediu um autógrafo a ele. Isso é coragem. Eu não acho que gostaria de reencontrar alguém depois de fazer xixi nas calças por causa dele”.
O produtor (e melhor amigo de Holmes) Bill Amerson afirma que a série Wadd inaugurou o star system no gênero em seus primórdios. Ele conta que “uma vez John e eu estávamos no parque Yosemite, pescando, e ficamos sem gasolina. Isso era nos anos 70, quando houve a crise de combustível e você só podia abastecer em dias alternados, dependendo do número da placa.
E aquele não era nosso dia. Quando o rapaz do posto apareceu, John
incorporou o Johnny Wadd – a voz mais grave, a atitude, a postura de
autoridade – como um detetive ou um personagem de Damon Runyon.

E o cara encheu o tanque só porque John assumiu sua porção Johnny
Wadd. As pessoas faziam isso. Ele chegava no embarque do avião e dizia:
‘Eu sou Johnny Wadd…’ e sempre ia de primeira classe.
Ele usava muito esse personagem e, de fato, acreditava que era o próprio.
Ele se tornou Johnny Wadd em sua própria cabeça e começou a achar que nada podia dar errado para ele, que ele podia resolver casos. Ele simplesmente
ficava louco às vezes. Não sei se alucinando, mas, sim, um pouco insano.
Era embaraçoso”.

E então você já viu este filme.

Grana e adulação em excesso acabam levando a um pouco de maconha de vez em quando e, na seqüência, a toneladas de cocaína e valium diárias.

Nos difíceis anos pré-Viagra, o consumo paquidérmico de substâncias não controladas pelo FDA acabou comprometendo o desempenho do astro (parafraseando Gay Talese, Holmes de pau mole é um Picasso sem tinta, uma Ferrari sem gasolina…)

Meio afastado das telas, Holmes buscou fontes alternativas de renda e se aproximou de traficantes – não raro trocando os favores de sua namoradinha Dawn Schiller (então com quinze anos de idade – vide foto abaixo) por mercadorias.

Neste processo ele conheceu uma gangue de traficantes que se reunia em Los Angeles em uma casa na rua Wonderland (ou “País das Maravilhas”, para usar a tradução do título do livro mais conhecido de outro pedófilo – Lewis Carroll, o autor da série Alice.)

A passagem de Holmes pelo mundo de Alice foi traumática.

Encarregado pelos traficantes de transportar uma carga de drogas, ele desapareceu com a encomenda narinas abaixo.

A falta de profissionalismo do performer não deixou felizes os comerciantes, que o obrigaram a surgir com algum tipo de reparação.

Esta veio através da facilitação do acesso à mansão de outro traficante – o libanês Eddie Nash, que poderia passar facilmente por irmão gêmeo do mafioso ítalo-brasileiro Tomasso Buschetta – o que, convenhamos, não chegava a ser uma vantagem para nenhum dos dois. Nash era tão louco que ia ao banheiro, não se limpava e obrigava garotas drogadas a executarem o serviço… com a língua!!!

Eddie Nahs - Uma péssima opção para assaltar

Eddie Nash – Uma péssima opção para assaltar

Depois de uma visita, Holmes saiu da mansão e deixou a porta aberta para a entrada da carrolliana troupe, que o assaltou e cometeu o erro de deixar o concorrente vivo e um pouco irritado.

Os informantes de Nash rapidamente o levaram até Holmes e este até a sede da organização.

O reencontro entre Nash e os homens que o tinham assaltado não foi bonito. Resultou em um banho de sangue com quatro mortos, espancados com um pedaço de ferro.

Foto Real da Cena de Crime em Wonderland

Foto Real da Cena de Crime em Wonderland

Para vocês, pervertidos, mais cenas reais do massacre em Wonderland – não recomendado para pessoas sensíveis (embora, pelo que eu saiba, ninguém sensível acessa esse blog)

A impressão da palma da mão de Holmes na parede sobre uma vítimas sugere que ele tenha sido mais que um mero espectador no massacre.

John Holmes Preso – ainda que por pouco tempo

Mas como nada ficou provado…

Julgamento de John Holmes: Inocente (ou Não Culpado, como eles dizem lá em cima)

Julgamento de John Holmes: Inocente (ou “Não Culpado”, como eles dizem lá em cima)

… Holmes saiu livre da prisão e pronto para um novo relacionamento – desta vez com uma atriz pequena e especialista em sexo anal (aliás, duas características que o bom senso recomendaria manter o máximo de distância do astro) chamada Laurie “Misty Dawn” Rose, que se tornaria sua Segunda e última esposa.

Misty Dawn

Misty Dawn

Dawn Schiller, em foto recente

Dawn Schiller, em foto recente

Em busca de novas formas de expressão de sua arte, Holmes fez um filme gay com um ator que pouco tempo depois morreria de AIDS.

Holmes descobriu que estava contaminado em 1986, o que não o impediu de continuar a atuar sem proteção – incluindo um filme em que contracenava com a parlamentar Cicciolina – a coisa mais embaraçosa que já tinha acontecido na política italiana até a eleição de Silvio Berlusconi.

A morte chegou em 13 de Março de 1988, depois de dois anos de ingestão suicida de todas as drogas disponíveis na cidade dos Anjos.

Em uma tentativa meio desastrada de homenageá-lo, a não muito brilhante Laurie declarou: “Saibam que o coração e a alma dele eram muito maior que o seu pau”.

O cool de John Holmes residia na perigosa fronteira da psicopatia – cujas características, segundo o Manual Estatístico e de Diagnóstico de Distúrbios Mentais, incluem o roubo, a mentira, o abuso de álcool e drogas, a incapacidade de lidar com o tédio, a indiferença aos sentimentos alheios…

A existência de um paralelo entre o cool e a psicopatia já tinha sido percebida por Norman Mailer, em um estudo sobre a tribo hipster, datado de 1957,

Norman Mailer, descobridos do Branco NegroNorman Mailer, descobridor do “Branco Negro”

quando o fenômeno ainda estava na adolescência (Levantando a perigosa hipótese do psicopata ser apenas um cool hardcore)

Mas estamos nos antecipando.

Para descobrir o que é cool, é preciso investigar suas origens.

PS – Se você quer mais, sugiro comprar o documentário “Wadd: The Life & Times of John C. Holmes”, de 1998, disponível em DVD, dirigido por Wesley Emerson, ganhador do prêmio South By Southwest Film Competition.
Aviso: o documentário é barra pesada, com cenas do crime em Wonderland. Se você esperava uma visão irônica e divertida de Holmes, esse NÃO é o filme para você.
Vai aí o trailer:


2 Respostas para “Um capítulo completo do livro “Fica Frio! Uma Breve História do Cool”

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