WALDICK SORIANO – O PATRONO DOS CAFAJESTES ULTRAJADOS

Já não se faz música ruim como antigamente.

Os que cometem o lixo musical de hoje em dia (duplas sertanejas, seus filhos e metades sobreviventes) querem fazer parte do mainstream cultural.

Já não se contentam com a vitrola do quarto da empregada. Querem freqüentar o Palácio do Planalto. Querem fazer shows nas casas mais refinadas das capitais, para casais de classe média que tomam vinho chileno. Querem suas músicas na trilha sonora da novela das oito. Se fossem alfabetizados, secretamente torceriam para serem espinafrados tanto quanto o Caetano pelos Mirisolas, Arans e Mainardis das letras.

Os Waldicks Sorianos e Odair Josés dos anos 70 tinham aspirações muito mais modestas. Um show em um cirquinho na periferia (com play-back) no final de semana, uma entrevista na rádio América.

Esta mudança tem uma razão sociológica bastante clara: Ela começa com a morte do Chacrinha.

Os ídolos bregas dos anos 70 contavam com o velho guerreiro para agarrá-los pelos braços e jogá-los para uma multidão de desdentados furiosos, fazê-los dançar com Chacretes, manter a conexão com o subúrbio que pagava o leite das crianças – enfim: fazendo o papel daqueles romanos antigos que seguiam atrás dos generais depois das grandes vitórias, lembrando-os de que eram mortais, ou de que eram carecas, ou feios (memento mori, lembra?) e com isso evitando crises de embestalhamento.

Com esta sede de legitimação, a música ruim perdeu seu entertainment value, a mistura de originalidade tosca e de poesia naive que a tornava tão divertida e que faz seus intérpretes serem cultuados por personagens como João Gordo, que babava quando um deles aparecia em seu talk show.

Se Odair José foi o Bob Dylan da Praça Mauá, cantando amores e redenção de piranhas, Waldick por sua vez não foi o Sinatra da Vila Brasilândia que ele se imaginava.

Foi, sim, o Humphrey Bogart da Penha, o Sam Spade de Paraisópolis, o Rick Blaine de Perús.

O cinema noir dos anos 40 foi o fruto do choque cultural que os ex-combatentes da 2a. Guerra encontraram ao voltar para os EUA e descobrir que as mulheres tinham se tornado mais livres e independentes.

A resposta artística veio na forma da criação da femme fatale, a personagem típica destes filmes, mulheres ruins até a medula, patologicamente cruéis, beirando a psicopatia.

O Brasil, fiel à sua tradição de esperar cautelosamente 30 anos para incorporar qualquer tendência, só nos anos 70 veio a notar esta nova mulher.

Machões tradicionais como Waldick reagiram da mesma forma que os Raymond Chandlers e Dashiell Hammetts de três décadas atrás – descendo o cacete na mulherada.

Em canções como “Eu não sou Cachorro Não” ou “Fui um Besta pra Você” Waldick assume o papel do amante desprezado que dá um basta aos abusos que as pérfidas suburbanas o submetiam.

Waldick, nestas canções, é tão frio quanto Sam Spade (personagem de Bogart em “O Falcão Maltês” – traduzido aqui com o estúpido nome de “Relíquia Macabra”), mandando a amante para a cadeia ou para a forca. E tão sádico quanto o detetive que se divertia espancando homossexuais.

Trata-as com a mesma agressividade com que Bogie recepciona Ingrid Bergman em seu bar em Casablanca.

Existe mesmo um lado kinky sex do Waldick, que emerge em canções como “Eu quero ser seu escravo” e “Tortura de Amor”, nas quais um lapso freudiano permite intuir nas entrelinhas um entusiasta das práticas celebradas por Sade e Masoch, ansiando talvez por uma Sharon Stone com um picador de gelo e umas algemas. Até nas clássicas “Eu não sou Cachorro Não” ou “Nem cachorro é Maltratado como Eu”, a recorrência de metáforas caninas permite inferir alguma tara por ser colocado em coleiras.

Woody Allen, no filme “Sonhos de um Sedutor”, encontra o apoio de um Bogart imaginário para lidar com as idiossincrasias femininas (“Mulheres são sensíveis. Nunca encontrei uma que não entendesse uma coronhada” chega a aconselhar o espírito).

É bom saber que nós, brasileiros, diante da ameaça metrossexual, em face de situações semelhantes, podemos sempre recorrer ao espírito de Waldick, representando o cafajeste ultrajado, aconselhando-nos enquanto canta seu clássico ”Você é um conformado…” com um ar de reprovação por trás dos enormes óculos escuros.

Como vantagem marginal, além se sua vasta experiência de mundo, ele – como o Bogart original – já vem equipado com chapéu, evitando qualquer sentimento de inferioridade perante nossos irmãos do norte.

Ouça Waldick.

Uma lembrança de quando a música ruim era tão assumidamente ruim que chegava a ser ótima.

Já no final, o mestre canta seu clássico “Tortura de Amor”

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4 Respostas para “WALDICK SORIANO – O PATRONO DOS CAFAJESTES ULTRAJADOS

  1. Quantos insights e ninguém comenta. Ousar dizer, costurar o incosturável, definir épocas e tendências em poucas e brilhantes linhas é uma arte, cada vez mais rara. No embalo, vou dar uns pitacos, como sempre.

    Mulher fatal é aquela que mata, como a Bette Davis. A Veronika Lake, com seu cabelão sobre os olhos, tinha fama, mas não era uma mulher fatal. Nunca vi Veronika matar, ao contrário, ela sempre suspira de amor. É confundida com piranha pelos seus objetos de consumo, mas no fim vence a mulher apaixonada que se preocupa com o sujeito carismático sempre em apuros, como o rosto de pedra Alan Ladd. Lauren Baccall vai no mesmo rumo. Bacall nunca mata Bogart, antes o envolve em sua teia de olhares lânguidos eternamente com 17 anos. Mas Bette Davis atirava sem dó.

    Antes da II Guerra, as mulheres já tinham se emancipado, com as melindrosas e similares. Em “On a Dangerous Ground” (1949, de Nickolas Ray), a ex-namorada do bandido cede ao torturador policial Robert Ryan, trocando informação por uma transa. Havia um link entre virilidade e entrega feminina, coisa que foi erradicada pelo politicamente correto. Anatomia era destino, hoje é a Madonna, que come aquele saradão.

    No Brasil, a brutalidade masculina decepcionada com as aprontadas femininas assumiu a dor de corno dos bolerões. O machão chora depois de fazer chorar. Não vale nada, não arrosta. Com exceção, claro, do Frank Sinatra cantando The lady is a tramp para uma passadaça Rita Hayworth e caindo de banda debochando da sua algoz (“jump , Joe, jump”). Tudo vale quando se é capturado no final por uma estupenda Kim Novac.

    Sei lá, esses insights são pura perda de tempo, mas são divertidos.

    • Nei:
      Teu comentário está muito melhor do que o meu post.
      Só discordo de serem perda de tempo.
      Eu mesmo, confesso, já perdi a conta de quantas mulheres deveriam ter ouvido de mim “Eu não sou cachorro não”.
      Elas nem ligariam, é claro, mas eu ganhei à duras penas o direito de espernear.
      Abração

      Renzo

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