Roberto Quartin

Nessa onda dos 50 anos de bossa nova, pouco ouvi falar do trabalho fundamental do produtor Roberto Quartin.

Bob tinha só 21 anos quando criou o selo Forma, que lançou o primeiro álbum de Eumir Deodato, “Inútil Paisagem”, além de ter gravado o Quarteto em Cy e o maestro Moacir Santos. Como se não bastasse, namorou Claudia Cardinale na passagem da atriz pelo Brasil.

Nos EUA, produziu o encontro de Frank Sinatra e Tom Jobim e, conquistando quase que imediatamente a confiança do cantor, este permitiu que ele copiasse todo seu acervo de gravações.

Depois da morte de Sinatra, a filha do cantor, Tina, recorreu a Bob para produzir os álbuns póstumos do pai, usando matrizes que só ele tinha.

Quartin foi uma das figuras mais generosas que eu já conheci. Gentleman absoluto, senso de humor refinado, contador de casos imbatível, gosto impecável.

Concordou em escrever o prefácio de meu livro – “Sinatra – O Homem e a Música”, um dos maiores presentes que recebi na vida.

Como escreveu Ruy Castro: “A morte de Quartin (em 2004) passou quase despercebida no Rio, exceto entre seus amigos, e foi praticamente ignorada em São Paulo, mas provocou funda comoção na comunidade internacional dedicada a Sinatra. Sua companheira, a ex-livreira e gerente de pesquisa da TV Globo Edna Palatnik, comunicou-a aos sinatrianos com que ele se correspondia, e passou os dias seguintes recebendo mensagens de condolências vindas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Uma dessas mensagens veio da própria Nancy Sinatra, confirmando sua amizade com Roberto e se dizendo grata por seu trabalho de décadas pela conservação da obra de Sinatra.”

Uma das (muitas) histórias deliciosas que ele dividiu comigo: Na cobertura de Vinicius de Moraes; Bob, Baden Powell e o dono da casa, trabalhando no álbum “Os afro-sambas de Baden e Vinicius”, que Quartin lançaria em 1966.

Lá fora, um entardecer daqueles maravilhosos, com o Sol tingindo de vermelho e roxo todo o céu, que só o Rio consegue produzir.

Vinicius está observando o espetáculo do terraço, com o inevitável copo de uísque nas mãos, quando Roberto se aproxima e pergunta:

“Poetinha, o que você prefere – o amanhecer ou o anoitecer?”

Vinicius dá mais um gole, olha para o céu, reflete um pouco e responde:

“Robertinho: o anoitecer. O amanhecer eu acho muito acadêmico”

Saudades, Bob.

7 Respostas para “Roberto Quartin

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  6. Prezado Renzo,
    Inicialmente, parabéns pelo ótimo nível do seu site. Curiosamente, hoje pela manhã, eu e o Heitor, dono da Track`s, uma loja de discos que fica na aqui no Rio, localizada na Gávea, falávamos exatamente de Roberto Quartin, Jobim e Franck Sinatra. O papel que estas três pessoas, desempenharam no mundo da música. Brasileira e internacional. comentávamos a “inteligencia emocional” de Sinatra. Um artista, que além das execepcionais qualidades vocais e musicais que possuía, além disto, o que já não é pouco, sabia cantar “as letras” das músicas, como comenta e menciona você. As compreendia poéticamente. A sintaxes, e então a partir daí, fazia arte. E por acaso, mais tarde, “fuxicando” aqui na internet, encontrei o seu site. E nunca havia visto, tal avaliação da forma de Sinatra cantar, escrita e dita em nenhum lugar. Por isto mais parabéns.
    Sou músico, compositor e também arranjador. E como não podia deixar de ser, gosto de tudo o que comenta em seus artigos. Jobim, Sinatra, Ogerman, Ridlle, Gene Lees, Quartin e etc. E por conta disto, e com sua licença, vou pedir sua ajuda. Existe especificamente um disco de Franck Sinatra, que há anos procuro e nunca consegui achar. Me marcou na infancia e na juventude. Valor musical de repertório, arranjos impecáveis, harmonias, contrapontos e sofisticadas texturas timbrísticas. Enfim um trabalho inesquecível. Não sei o nome, deste ainda Lp. Era nacional. Mas o selo era Capitol. E faziam parte do repertório do disco as seguintes canções: Whats New, The Lady Is a Tramp e mais algumas outras canções memoráveis. Você sabe que disco seria este? Bem, se lembrar me de um toque em armeniot.graca@gmail.com
    Abraços
    Armênio

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