O Maior Artista do Século XX

Você provavelmente nunca ouviu falar de Cassius Marcellus Coolidge.
Não faz mal, ele também morreu sem saber quem você era.
Bem, voltando ao Coolidge, ele é simplesmente o mais importante artista plástico do século XX e também um dos mais injustiçados.
Coolidge é um destes artistas malditos, cuja obra é tão importante que acabou eclipsando o artista.
Coolidge nasceu nos Estados Unidos, em 1844 – quase quarenta anos antes que seu maior rival, Pablo Picasso. Este gap provavelmente ajudou Picasso a se tornar mais célebre que Coolidge – única explicação possível, já que a obra do segundo é em todos os aspectos superior ao do superestimado espanhol.
O que caracteriza o grande artista é a sua capacidade de reinterpretar/reinventar o mundo, esta possibilidade de olhar a realidade e transmutá-la de acordo com as engenhosas e intrincadas exigências de sua criatividade.
Em 1907 Picasso deu o passo inicial para o cubismo, com as Demoiselles d’Avignon, mostrando as prostitutas de um bordel parisiense. Nele, as moças de vida fácil se fundem com máscaras africanas, naquilo que pretensamente estaria revolucionando a arte de então e que abriu caminho para uma porrada de picaretas ficarem desenhando caixinhas escrotas com nomes pretensiosos, enchendo o saco de gerações de incautos, obrigados pelas namoradas a incluir museus de arte moderna em viagens pela Europa, enquanto eles preferiam estar no Shopping Center comprando coletâneas do Richard Clayderman para mostrar aos amigos que tem bom gosto e sabem apreciar música instrumental.
Picasso foi o principal criador dos quadros para os quais você olha e pensa secretamente “porra, meu sobrinho de seis anos faz a mesma coisa”
Nada que se compare com o trabalho de Coolidge, que nos anos 20 criou a série dos cães que jogam poker, uma das imagens mais revolucionárias, inovadoras e marcantes do século passado.
Enquanto Picasso, reconhecidamente misógino, reduzia as prostitutas a figuras quase inumanas, reforçando o conceito de mulher coisificada, mero objeto para prazer do priápico pintor, Coolidge se preocupava com os efeitos perversos do jogo e seu poder de reduzir o viciado a um mero animal, perdendo sua capacidade de arbítrio – revelando uma piedade pela espécie humana que Picasso não exibiu em nenhum momento de seus noventa anos de vida.
A compaixão de Coolidge pelos jogadores compulsivos gerou uma imagem tão poderosa que por um momento esquecemos que os cachorros – mesmo os mais intensamente treinados – não conseguem sentar em cadeiras, quanto mais segurar cartas de baralho e fumar charutos ou cachimbos, o que nos dá uma dimensão da dificuldade do trabalho do autor em conceber a composição pictórica que alterou para sempre as artes plásticas.
Coolidge morreu em 1937, na casa dos noventa anos – assim como Picasso. Enquanto o espanhol continuou trabalhando incessantemente, gradativamente infantilizando/simplificando seu trabalho, produzindo muito para gerar caixa que financiasse suas extravagâncias, castelos na Europa e o cacete, Coolidge se negou a prostituir sua arte e parou no auge.
Mais uma coisa: Coolidge também foi o inventor daqueles quadros de circo com espaço para encaixar a cabeça, que fazem parte da história de nossas vidas (Quem de nós não tem uma foto com o corpo do homem forte? Você não tem ? Porra, você é infeliz pra cacete, hein…) e que, de alguma forma, inaugurou o conceito de arte interagindo com o público e foi uma das instalações de maior sucesso de seu tempo, mesmo antes da palavra instalação se tornar popular entre os críticos.
Mesmo assim, Coolidge não é encontrado no MOMA de NY, o MASP não tem uma retrospectiva Coolidge, não existem livros com análises de seu trabalho.
Talvez seja melhor assim.
Talvez o lugar de sua obra seja em nossos corações, e não nas salas frias dos museus. Mas talvez ele se orgulhe de saber – onde quer que sua alma atormentada esteja – que muitas pessoas, como eu, cada vez que vêem um cão imediatamente o imaginam com uma quadra de reis nas mãos e um charuto na boca.

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